Após meses de lero-lero, o presidente Lula resolveu desembuchar a prometida reforma ministerial. Ela começou em ritmo de pagode num divertido jantar acontecido no último dia 20 de janeiro, na Granja do Torto, residência do presidente da República, com a presença do cantor e compositor Zeca Pagodinho. A festança, que avançou até altas horas, foi regada, segundo os convivas, com bebidas levadas pelos próprios, não faltando lágrimas de ministros que, ao som do cavaquinho e do violão, juravam amor eterno ao se despedirem do anfitrião, pela honrosa missão que lhes confiara.
O pagode ministerial mostra bem o estilo Lula quando de tratar assuntos onde a emoção deve dar lugar ao pragmatismo. Sabe-se que é preciso cumprir os compromissos com a nação, mas, por vezes, as coisas se misturam e as idas e vindas do humor presidencial refletem na hora da decisão, além da questão sentimental, problemas internos e externos ao PT.
O PT vive disputas internas que ao olhar no retrovisor político sabemos não serem pacíficas. As antigas estrelas como a senadora Heloísa Helena, a deputada Luciana Genro, filha do prestigiado ministro Tarso Genro (agora na Educação), e o folclórico deputado Babá que o digam. Os petistas contrários às propostas do governo no Congresso e os que reclamam mais espaço para seus grupos na máquina do governo vivem dias penosos.
O chamado “núcleo duro” do Poder não abre mão do mando e anela o presidente nos momentos decisivos. Estes últimos dias, por exemplo, revelaram conflitos internos que desaguaram numa reforma mais ampla que a anunciada. Aproveitou-se a ocasião para alguns acertos de contas que nada tem a ver com a competência demonstrada por cada um à frente dos seus ministérios. A saída do ex-governador do DF, peso-pesado petista, senador Cristóvam Buarque, da Educação, fez parte desse ajuste. Cristóvam sai pisando duro e vai direto para a tribuna do Senado, ele têm mandato. Surpresa, também, foi à saída do ministro Jacques Wagner, do Trabalho, que conseguiu se salvar da degola graças ao prestígio do colega Zé Dirceu. Ficou em outro ministério.
O superministro José Dirceu mais ganhou que perdeu. Saiu (pelo menos é o que se anuncia) da coordenação política, entregue ao deputado do PC do B, Aldo Rebelo (terá um ministério montado para essa finalidade), e ganhou mais força administrativa para gerenciar todos os outros ministros. O Berzoini esperneou e, com o apoio do amigo Gushiken, sai da Previdência e vai para o Trabalho. A Benedita, da Assistência Social, o Graziano, do Combate a Fome, e a Emília Fernandes, da Secretaria das Mulheres, foram pra casa. Na área econômica a força do Palocci não permitiu que ninguém fosse pra casa. Quem não tem padrinho morre pagão. Nessa reforma os pagãos saíram cantando o sucesso do Zeca Pagodinho, “Deixa a vida me levar”. Lula teve que ser pragmático, senão o pagode desafinava.
O PMDB, visto como problema no início, acabou sendo o mote para o acerto de contas interno do PT. Sabe-se que o PMDB apoiou o candidato tucano José Serra e que Lula, com suas razões, tem dificuldade de digerir isso. Preferiria negociar apenas com os que o apoiaram, mas a realidade impõe o entendimento. Assim, o PMDB ficou com a Comunicação e a Previdência Social, e foi saudado como aliado no Congresso e nas eleições de 2004.
A reforma foi político-administrativa. A orientação econômica do governo não entrou no pagode. Os juros continuarão fazendo o povo cantar, “deixa a vida me levar...”. (O autor, Tidei de Lima, é engenheiro civil, ex-deputado federal, ex-secretário da Agricultura e ex-prefeito de Bauru)