A prisão de 21 pessoas e a apreensão de oito adolescentes acusados de tráfico de entorpecentes, na madrugada de anteontem, na região da Praça Dom Pedro II, faz a Polícia Militar (PM) defender o fechamento dos bares às 23h como forma de inibir a ação dos marginais. A corporação acredita que os estabelecimentos servem de disfarce para os traficantes, que se concentram nas calçadas.
A medida começou a ser discutida no ano passado, quando a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal apresentou a proposta. O projeto de lei que trata do assunto está sendo elaborado.
“O bar contribui para dar uma certa legalidade à ação dos traficantes que se concentram em frente ao estabelecimento. Se nos horários mais avançados da noite ele estivesse fechado, não teria motivo para aquelas pessoas estarem circulando por ali”, opina o comandante da 7ª Companhia de Forças Táticas da PM, capitão Wellington Luiz Dorian Venezian.
Ele acredita que a decisão irá prejudicar poucos comerciantes. “O número de bares que fecham até as 23h é imensamente superior ao dos que ficam abertos. Além disso, pizzarias ou lanchonetes não são bares. A definição de bar é o estabelecimento que tem como principal atividade a comercialização de bebidas, e não de alimentos”, diz.
O comandante da 1ª Companhia da PM, capitão Benedito Roberto Meira, afirma que a idéia de se fechar os bares às 23h tem como objetivo atacar principalmente os problemas registrados no Centro. “O tráfico de drogas e a prostituição é reinante naquela região”, justifica.
Meira afirma que os estabelecimentos também servem, muitas vezes, de esconderijo para os traficantes. “Eles entram e saem dos bares com freqüência. Fica impossível para quem faz policiamento ostensivo fardado, como é o nosso caso, surpreender essas pessoas”, declara.
Para ele o fechamento dos bares às 23h não fará com que o tráfico de drogas continue sendo realizado normalmente em outros horários. “A ação dos traficantes é na calada da noite, quando a circulação de pessoas se restringe, com raras exceções, a quem vai comprar droga”, analisa.
Elaboração
O vereador João Parreira (PSDB), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal e um dos autores da proposta que determina o fechamento dos bares às 23h, afirma que a redação do projeto de lei está sendo finalizada para que ele possa ser apresentado a partir da próxima semana, quando termina o recesso do Poder Legislativo.
Segundo ele, alguns pontos da proposta ainda estão sendo debatidos. “Uma das questões é saber se ele será aplicado apenas às regiões que apresentarem problemas”, afirma.
Parreira defende que o projeto atinja todos os bares. “Em função dos fatos que evidenciam o problema, o ideal seria que todos fechassem às 23h”, comenta.
Para o delegado Seccional de Bauru, Antônio Angelo Ciocca, a limitação de funcionamento dos bares pode auxiliar no combate à criminalidade. “Mas é preciso definir bem quem será e quem não será afetado por ela”, ressalva.
A operação realizada anteontem pela PM foi possível graças a uma investigação coordenada pelo Serviço de Inteligência da corporação durante mais de um mês. Foi a maior prisão de pessoas envolvidas com tráfico realizada em Bauru nos últimos anos.
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Silêncio
A maioria dos proprietários de bares localizados na região central da cidade que foram ouvidos pela reportagem não quis comentar a proposta de fechamento dos estabelecimentos às 23h.
Um dos comerciantes, que pediu para não ter o nome publicado, afirma que irá cumprir a determinação, caso ela seja implantada. “Se virar lei, não teremos outra alternativa”, argumenta.
Ele se mostra, porém, contrário à idéia. “Além dos lucros, essa decisão também irá prejudicar os freqüentadores que gostam de ficar aqui até mais tarde”, opina.
O comerciante também discorda da associação feita entre bares e a comercialização de drogas. “Se tem gente que faz algo errado, é da porta para fora. Nós não temos nada com isso”, diz.
Outro proprietário, que também não quis ser identificado, afirma que costuma fechar seu estabelecimento antes da meia-noite. “Acho bom que todos tenham que fazer o mesmo. Ajudaria a evitar problemas”, declara.
A reportagem também tentou, mas não conseguiu localizar o presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio Hoteleiro e Similares de Bauru e Região, Francisco Pereira de Andrade, para falar sobre o assunto.