Pureza e simplicidade. Essas características são naturais da arte naïf, estilo de pintura primitivista que surgiu no final do século 19, em Paris, indo na contramão da técnica utilizada nas escolas artísticas. Autodidatas, os artistas desse gênero eram, no passado, definidos como crianças ou loucos. Com o passar do tempo, os pintores da arte naïf - também conhecida como arte ingênua - se espalharam pelo Brasil.
Atualmente, eles são altamente reconhecidos por adotar um estilo único de pintura que costuma expressar temas do cotidiano dos autores e elementos da cultura popular. Em Bauru, também é possível se apreciar uma exposição de arte naïf. A artista plástica pernambucana Lourdes de Deus inaugurou ontem, no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva”, uma mostra de 29 telas da arte ingênua. A exposição vai até o dia 26 e tem entrada gratuita.
Considerada uma das principais representantes do naïf no País, Lourdes faz questão de apresentar um trabalho fiel às características dessa arte. Assim, escolheu pintar as tradições culturais e religiosas brasileira. Os temas vão desde o Carnaval até as procissões católicas, não deixando faltar as tradicionais festas juninas, as danças regionais - como o frevo pernambucano, o maracatu e a catira - e o folclore popular (bumba-meu-boi, cavalhadas de Goiás e a festa de Parintins da Amazônia).
Um dos destaques, segundo a artista, é o quadro “Dança Com Flores”, que retrata uma grande quermesse. “Em outra tela, mostro uma procissão de sem-terras andando em lugares maravilhosos em busca de um lugar para morar”, conta.
Mas apesar de priorizar a cultura popular, Lourdes ressaltou - subjetivamente - em sua telas um lado de crítica social. Um exemplo são os quadros sobre o Carnaval. “Mostro todo o colorido dessa festa, incluindo as escolas de samba e fantasias, mas na frente das alegorias, pintei um grupo de políticos. Dessa forma, aponto a relação deles com o Carnaval”, explica a artista.
Lourdes revela que o ser humano é sua fonte de inspiração, e como ela própria afirma, gosta de pintar multidões. “É minha marca registrada, o homem é o elemento mais importante nos meus quadros”, diz.
A artista ressalta que por escolher um lado humanista, aborda todos os assuntos ligados ao ser humano de forma alegre e sutil. Para isso, abusa das cores em suas telas. “Como retrato nosso País tropical, uso cores primárias e tons vibrantes”, diz a artista.
Detalhista, ela procurou preencher todos os espaços dos quadros com desenhos e muitos elementos repetidos. Essa “técnica” - que utiliza cores primárias e ausência de volume, com poucos contrastes de luz e sombra - é adotada pela maioria dos representantes da arte naïf.
A composição é harmônica e promete não confundir ou cansar o olhar do espectador, garante Lourdes. Pelo contrário, o resultado promete encantar o público, que segundo a artista, ao apreciar a mostra deve levar em conta o sentimento impresso em cada obra.
Origem
O termo naïf tem origem francesa e é traduzido livremente com o sentido de “ingênuo”. A palavra foi utilizada pela primeira vez na área de artes plásticas no final do século 19 e início do século 20, para desqualificar o trabalho do pintor francês Henri Rousseau, conhecido como “o alfandegário” por causa de sua profissão.
Por fugir dos padrões estéticos da época, ele foi muito criticado. Anos depois o modernismo redimiu a “arte ingênua”, tornando-a popular em todo o mundo, inclusive no Brasil, que possui um número considerável de artistas que praticam esse estilo.
• Serviço
Mostra de arte naïf, da artista plástica Lourdes de Deus pode ser apreciada até dia 26 de fevereiro, no Centro Cultural de Bauru. A entrada é franca. Avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: (14) 3235-1072.