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Bauru perde R$ 4 mi por ano com ISS

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 6 min

Os cofres da Prefeitura Municipal de Bauru deixam de receber cerca de R$ 4 milhões anuais de Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS) por conta da sonegação fiscal. Para se ter um idéia do custo da evasão, a receita do ISS em 2002 (o último balanço fechado) foi de R$ 13 milhões. Os R$ 4 milhões no ralo também poderiam incrementar em aproximadamente 2,5% a previsão de arrecadação de Bauru para este exercício, que é de R$ 165 milhões.

A sonegação de ISS, um tributo municipal, é um dos exemplos de como os caixas das prefeituras, dos Estados e da União deixam de engrossar o orçamento, que, na teoria, deveria ser aplicado no aprimoramento da oferta de direitos básicos do cidadão, como escola e hospitais. Embora a tecnologia esteja cada vez mais sendo utilizada pelo Estado para estancar a evasão fiscal, principalmente através do cruzamento de informações de bancos de dados de diversos órgãos, o consumidor é responsabilizado por omissão em um ponto básico: a nota fiscal.

O secretário municipal de Finanças, Raul Gomes Duarte Neto, observa que o cidadão nem sempre sabe que um prestador de serviço - do psicólogo ao cabeleireiro - precisa emitir nota e recolher ISS. “Muitas vezes a pessoa que recebe o serviço não exige a nota. E ocorre também do prestador de serviço não estar cadastrado na prefeitura”, diz.

De acordo com o secretário, as perdas do município vêm, principalmente, do ISS, do Imposto sobre Transmissão de Bens Intervivos (ITBI), necessário nos negócios imobiliários, e do reflexo da queda de arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Este último, embora de esfera estadual, é repassado aos municípios. Bauru, que tem participação de 0,51% no bolo do ICMS, recebe cerca de R$ 40 milhões por ano.

Para Duarte Neto, a retomada da arrecadação de ICMS, hoje em queda, poderia contribuir para o município colocar a casa em ordem com mais tranqüilidade. “Se o Estado recuperar sua arrecadação do ICMS, com aceleração econômica ou através de uma fiscalização para contenção da sonegação fiscal, certamente esse valor seria elevado. Mas essa é uma ação do Estado”, diz.

Fiscais

A perda de R$ 4 milhões anuais com o ISS foi estimada pelo diretor da Auditoria Fiscal de Receitas Mobiliárias da cidade, Marco Antônio Schallmair. Segundo ele, a nova tabela do ISS, válida a partir deste ano, não deve modificar muito o quadro, uma vez que, embora tenha abrangido mais categorias, reduziu quase todas as alíquotas de 5% para 2%. O nó da questão é a falta de fiscalização.

De acordo com Shallmair, são apenas 19 fiscais de sua diretoria para cobrir todos os prestadores de serviço da cidade - atualmente, são 19 mil cadastros ativos. Deste total, apenas 45% recolhem o tributo regularmente. O diretor admite que pequenos contribuintes, como cabeleireiro de bairro, acabam ficando de fora. “Nós temos pouco pessoal para fazer uma fiscalização em cima mesmo”, diz. E completa: “Há categorias que foram contempladas (com a nova tabela do ISS) e que ainda nem estão sabendo”.

Planta genérica

Outra perda importante do município vem do ITBI. Neste caso, porém, o problema não é fruto de tentativas deliberadas de sonegação tampouco da falta de fiscais, mas da falta de uma planta genérica atualizada do município. De acordo com a diretora da Auditoria Fiscal de Receitas Imobiliárias, Liane Maria Vieira Manoel, o órgão, responsável pelas transações imobiliárias, está desde 1996 tendo fazer uma atualização média do valor venal dos imóveis para poder recolher imposto sobre o valor real, o de mercado.

“A maioria já não paga sobre o valor venal, mas com acréscimo de cerca de 250% entre o valor venal e o valor de mercado”, afirma Liane. Segundo ela, a arrecadação de ITBI é de R$ 4 milhões anuais, em média, mas poderia ser bem maior. Só no caso de apartamentos, a defasagem ainda é de 70%, além da correção de 250%. “No dia em que for aprovada uma planta genérica, acaba esse problema”, declara.

No comércio, sonegação é menor com aumento do teto para o Simples

A elevação do teto das micro e pequenas empresas para enquadramento no imposto Simples ajudou a diminuir a sonegação fiscal. Desde o ano passado, o valor máximo de faturamento anual para as micro subiu de R$ 120 mil para R$ 150 mil, com alíquotas gradativas sobre valores excedentes.

O projeto, idealizado pelo Sindicato do Comércio Varejista de Bauru (SinComércio), conseguiu “equacionar” a evasão fiscal do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), na opinião do presidente da entidade, Walace Garroux Sampaio. Antes, se o faturamento ultrapasse o teto, era tributado sobre o todo. “A legislação anterior era um estímulo à sonegação”, afirma.

Para Sampaio, o aprimoramento do aparelho fiscal do Estado transformou a sonegação em risco real. “A sonegação para uma empresa formalizada é um risco muito grande. O grande problema hoje é a informalidade”, diz.

O presidente do SinComércio afirma que a concorrência dos camelôs, dos ambulantes e das feiras temporárias é uma reclamação constante, que desperta um “sentimento de injustiça” entre os comerciantes. “O grande problema é concorrer com quem está na informalidade. Esse é o pior concorrente do comércio”, afirma.

Queda menor

Números da Delegacia da Fazenda de Bauru mostram que a arrecadação caiu menos na região do que no restante do Estado. Em Bauru e nos municípios que fazem parte da delegacia, a queda foi de 11,06%, passando de R$ 497,2 milhões em 2002 para R$ 442,2 milhões em 2003, em valores deflacionados. No Estado, a queda foi de 12,09%.

Para o delegado da Fazenda em Bauru, Norberto Crespi, não há nenhum setor atualmente que dê mais “dor de cabeça” ao fisco estadual. “A sonegação é geral, em todo o ramo tem um pouquinho”, diz. Segundo ele, porém, a receita diminuiu devido a uma aposta governamental na exportação.

De acordo com Crespi, o governo está incrementando a fiscalização sem “sair da sala”. “Aqui a gente vem recuperando a arrecadação. Existe hoje um monitoramento eletrônico. Quando a gente percebe que começa a diminuir a arrecadação de um ramo ou de um contribuinte, a gente manda um fiscal verificar”, afirma.

Crespi também observa que a redução da alíquota de ICMS do álcool de 25% para 12% para vendas no Estado ajudou a evitar a evasão fiscal por meio de notas frias. Antes, o produto era comercializado com nota para outros Estados - o que diminuía a alíquota para 7% - mas o produto permanecia em São Paulo.

Você pede nota fiscal?

“Não tenho o costume de pedir, só pego quando a loja entrega na compra”, Priscila Cristina Miranda Rosa, dona de casa

“Não peço. Nunca tive problemas para trocar mercadoria”, Dirce Pereira Cipriano, auxiliar de serviços gerais

“Eu peço quase sempre, mas acho que é obrigação da loja fornecer sem você pedir”, Paulo Roberto de Melo, técnico em informática

“Não peço. A loja deveria dar a nota completa, mas muitas vezes eles dão só um comprovante”, Karina Cristina da Silva, estudante

“Eu sempre peço porque já tive problemas na hora de fazer uma troca. A loja não tinha me dado a nota e eu acabei ficando com a mercadoria que não queria”, Laís Machado Stigliano, auxiliar de escritório

“Sempre peço a nota. Na loja em que trabalho, vejo como muitas pessoas não dão importância, mesmo quando estão comprando um produto com garantia, como um celular”, Luís Fernando Domingues, administrador de empresas

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