Nos desfiles internacionais é raro ter uma roupa na passarela que qualquer mortal tenha coragem de usar. Na verdade, o prèt-a-porter é uma prévia e uma fusão de tendências que serão usadas nas próximas estações. Mas no Brasil, o que se vê no desfile pode ir direto para as ruas.
A 16.ª edição da São Paulo Fashion Week, que terminou na última terça-feira, trouxe coleções de inverno para um frio de qualquer intensidade. Aliás, se o clima da estação esquentar tem muita roupa de tecido leve para se vestir.
A ordem dos estilistas é mixar curto e pesado, leve e colorido. Muitos decotes, fendas, cinturas marcadas e barras subindo vão ditar as formas.
Os estilos percorrem o romântico, claro e rendado ao punk agressivo e cintilante. Os cowboys estão de volta e desenhos animados e personagens infantis povoam uma moda colegial no melhor estilo anos 80, com direito a xadrezes de todos tipos. Mas na nova estação também teremos listras, poás e até patchwork. Os hippies também terão espaço e trarão muitos bordados a batas, túnicas e vestidos.
As camisetas estarão com tudo com jeans para eles e minissaia para elas. A cintura baixa continua em alta para ambos.
Os detalhes ficam por conta de golas, babados, franjas e bordados.
Para aquecer realmente, xales, cachecóis e botas de cano altíssimo, scarpins até com meia arrastão, fazem companhia a casacos ajustados no estilo trench-coat longos. Os casacos mais curtos pedem um corte reto.
Peças utilitárias que se transformam e se multiplicam ganham espaço no guarda-roupa. Os velhos e coloridos tênis básicos também serão resgatados.
As pérolas serão as jóias mais cobiçadas. Chapéus e gorros também são acessórios que irão fazer a cabeça de muita gente.
Uma profusão de cores fará o inverno mudar o tom sóbrio do preto, que abrirá espaço ao branco e cores quentes como vermelhos e amarelos. Os tons pastéis de pele e cinza dão o contraste na estação que deve ser cheia de brilho.
Os tecidos naturais como jeans, seda e algodão estão em alta, mas abrem espaço para as fibras sintéticas e malhas frias.
Depois de um dos desfiles mais esperados da semana, o da Cavalera, uma multidão de repórteres correu para ouvir a opinião da consultora de moda e estilo Constanza Pascolatto, presença obrigatória na primeira fila de qualquer passarela.
Ainda rindo do apresentação, ela avaliou: “Hilário o terninho feminino com decote porta-sutiã com calça capri. Deliciosos os tricôs em proporções novas em vermelho, poás, degradê. Novo look para meninas que deveria emplacar: blazer esturricado com short, dentro da linha pin-up, que talvez é o melhor lado dos 50. O masculino inovou no blusão verde usado por dentro das calças jeans usadas dentro de tênis All Star. O final apoteótico não embassou o ar vagamente felino das gatas e gatos.”
Confira a seguir as peças-chave de algumas das coleções da SPFW:
Ricardo Almeida - A silhueta seca das calças também se estendeu para os paletós, com corte anatômico das mangas. Casacas, cabans, capas, jaquetas perfecto e smokings compõem a coleção. O formalismo do terno encontrou seu oposto nas jaquetas quadradas, com zíperes e trespassadas.
Zoomp - Looks em veludo, como casaco com tachinhas; jeans superbacana, em especial no vestidinho de cintura alta e mangas curtas. Texturas de peles, cetim e desfiados davam vida ao preto total, ocasionalmente incrementado por amarelo, laranja e branco.
Ellus - Os homens ganharam ares rurais e muitos tons de marrom. Já as mulheres foram vestidas de sedas florais em vestidos leves. Xadrez, veludo e jeans para quando a temperatura cair, tudo com muita mistura de textura e cores dos tons mais claros ao brilho intenso dos bordados.
Mário Queiroz - O estilista resgatou homens românticos apostando em formas irregulares, esgarçadas e ajustadas, jogando com os volumes em blusas amplas de grandes cavas com calças mais baixas, coladas ao corpo.
Patachou - A estilista Tereza Santos usou e abusou das cores e do tricô. Colocou modelos de calcinhas de lã, gorros e cachecóis para brincar na passarela.
Renato Loureiro - Inspirado nos jóqueis, o estilista levou calçadas de montaria, botas de cano longo contrapondo com blusas e vestidos vaporosos. Muitas saias lápis com pregas para o dia e longas para a noite.
Ronaldo Fraga - Vestidos glamourosos e cheios de detalhes em tons de cinza, preto e roxo, tecidos bordados de flores e estampas de beijo. O dourado pontuou apliques. Num segundo momento, surgem tricôs, jeans e camisas, gravata pregada na lateral.
Lino Villaventura - A coleção trouxe roupas quentes e luxuosas, como os vestidos fluídos e transparentes e casacos de veludo para as mulheres. A coleção masculina, traduzida em blusas justas e calças. As franjas surgem com tudo em echarpes, saias e até calças.
Caio Gobbi - Coloriu a passarela de vermelho, amarelo, azul e verde numa moda urbana, jovem e alegre. As camisas ganham mangas de outra cor, assim como os bolsos de algumas calças. Os jeans são o destaque. Bem lavados, ganharam jatos de cores, com spray. O estilo navy também marcou presença.
Cavalera - Roupas multicoloridas e estampadas, com referências a diversas tribos, do cowboy do asfalto ao roqueiro tatuado. Calças cigarrete, decotes porta-sutiã, muitas camisetas e blusões.
Forum - Tufi Duek caprichou nos casacos de lã 7/8, nas jaquetas de veludo, nos blusões de tricô e cachecol para os homens que usaram jeans. A versão feminina da grife traz calças de sarja e couro e vestidos.
Iódice - Brilhos, pedras e muita sensualidade compõem a mulher. O homem é mais despojado, usa ternos e jaquetas bem estruturadas com índigo rasgado.
Rosa Chá - Nos biquínis e maiôs, Amir Slama não mostrou novidade nas modelagens que seguem a coleção de verão com recortes e cores laranja, verde e vinho. Mas Naomi Campbell fez a diferença.
Alphorria - Sexy e provocante com direito a cinta-liga. As peças apresentam seios e cintura bem marcados numa silhueta ora longilínea, ora com babados e volumes. Brilho, bordados de rosas e franjas contracenaram com seda e tecidos transparentes.
Jum Nakao - Roupas fluidas que, sobrepostas, compõem novos looks. O estilista mostrou uma linha urbana e performática em que bolsa vira jaqueta, blusa vira vestido, além de vestidos no melhor estilo oriental.
Huis Clos - A coleção é inspirada nas estruturas dos anos 50, mas, com recortes, pregas e construções contemporâneas. São peças feitas em diferentes tecidos. Destaque para as saias em evasê e os bordados de sakura, uma espécie de flor de laranjeira.
Marcelo Sommer - Peças pesadas feitas em lã, veludo e flanela. Vestidos de babado e roupas de escoteiro amenizaram o calor do desfile sob o sol. Nas cores vermelho, azul, verde e marrom, a coleção ganhou lenços como acessórios.
Alexandre Herchcovitch - Saias lápis feitas em pêlo com cintura marcada e na altura do joelho contrastaram com vestidos feitos completamente de babados. Personagens infantis inspiraram peças de preto total.
Fause Haten - Usou e abusou do jeans que ganhou lavagens e estampas para serem usados com blusas de tricô e blazers de alfaitaria. As camisetas vieram com personagens de HQ em verde musgo, vermelho, laranja, branco e preto. As mulheres ganharam trajes coreanos e o estilista brincou com aventais. Bolsinhas bordadas quebraram a seriedade das roupas.
Zapping - A estilista Thais Losso quebrou todos os paradigmas e levou para a passarela gordinhas anônimas. O desfile foi tão bem-humorado que teve até saia em forma de bolo de noiva. As tendências de cores e formas foram para o espaço.
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As tops do SPFW
Elas não causam tumulto, como Gisele Bündchen, mas são tops de presença marcante - e constante - nos desfiles da São Paulo Fashion Week. Tanto que são reconhecidas por boa parte da platéia quando aparecem na passarela.
• Marcelle Bittar
Agência: Mega
Idade: 21 anos
Desfila na SPFW desde 2000
Número de desfiles em 2004: 25
“Sempre amei vir para cá. São Paulo é a melhor cidade do mundo.”
• Isabeli Fontana
Agência: Mega
Idade: 20 anos
Desfila na SPFW desde 1997
Número de desfiles em 2004: 22
“A SPFW está cada vez melhorando mais. Está maravilhosa.”
• Ana Beatriz Barros
Agência: Elite
Idade: 20 anos
Desfila na SPFW desde 2001
Número de desfiles em 2004: 21
“Desfilar em São Paulo é tudo de bom.”
• Michelle Alves
Agência: Marilyn
Idade: 23 anos
Desfila na SPFW desde 1996
Número de desfiles em 2004: 12
“Em comparação com o Exterior, a Fashion Week tem a vantagem de concentrar todos os desfiles no mesmo lugar e o público pode entender melhor o que é a moda.”
• Mariana Weickert
Agência: Ford
Idade: 21 anos
Desfila na SPFW desde 1998
Número de desfiles em 2004: 11
“Adoro desfilar na Fashion Week, porque é meu País, aqui tenho amigos e falo a minha língua.”
• Ana Hickmann
Agência: Mega
Idade: 22 anos
Desfila na SPFW desde 1996
Número de desfiles em 2004: 8
“Fashion Week já não é nem mais trabalho. Foi o primeiro lugar onde eu desfilei quando eu tinha 15 anos.”
Fonte: Assessoria de Imprensa SPFW
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Modelos também sofrem
Ausência de maquiagem, cabelos molhados, calças jeans justas, saias muito curtas, blusinhas básicas e frescas e saltos altíssimos fazem o visual do batalhão de modelos.
As mais famosas chegam em carros de luxo, sozinhas, trazidas pelos pais ou por namorados igualmente bonitões.
Já a grande maioria chega apertada em vans das agências ou dos patrocinadores do evento.
Elas andam apressadas, mas, às vezes, formam panelinhas combinando um trabalho ou dizendo que estão com fome.
Nos camarins, o cardápio é feito de suco, água, canapés e alguns sanduíches. E muitas passam o dia com apenas água.
No universo das magras, comer é um hobbie e elas avançam nos chocolates espalhados pelos estandes.
Entretanto, o verdadeiro tormento das modelos não é nem a maquiagem, nem as chapinhas e frisadores. Mas sim os sapatos. A coisa mais comum era encontrar nos corredores dos camarins, modelos descalças e mancando.
Até nos desfiles é perceptível que os sapatos estão apertando, saindo dos pés ou escorregando. O andar é outro.
Como o que importa é a roupa, ainda não existe uma parceria entre as indústrias calçadistas e de vesturário. Entre as grifes, apenas a Zoomp e a Forum produzem também calçados. Sommer e Alexandre Herchcovitch desenharam, cada um, um modelo com salto para a Melissa. Mário Queiroz também desenha seus sapatos e tênis masculinos, que são produzidos pela Ferracini e Try On.
Queiroz, que esteve recentemente em Jaú, na Mostra de Calçados, apontou a necessidade de uma integração maior entre os setores.
A Arezzo fornece sapatos para Reinaldo Lourenço e Carlota Joakina, mas critica os estilistas por não fazerem prova de sapato junto com a roupa, pois se uma modelo cai a culpa é sempre do sapateiro.
Mas a defesa vem da veterana Luciana Curtis, que sempre afirma em entrevistas que pé de modelo não tem número. Ela é uma das que mancou em um desfile com sapatos apertados. Mas afirma que já está acostumada. São mais de 10 anos de carreira entre o glamour e o sofrimento.