Tribuna do Leitor

Falando de poesia


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Final de junho de 87. Eu chefiava a reportagem de um antigo e pequeno jornal paulistano. Além dos repórteres, cuidava também dos editoriais e de uma página diária de cultura e variedades. Trabalhinho bastante fácil e até bem-remunerado, tinha sempre oito ou dez páginas fechadas antecipadamente.

Um tempo bom, a única coisa que me tirava o humor era uma picuinha antiga com o filho do dono do jornal. O velho gostava de mim, mas o filho roía-se de ciúmes com a atenção com que o pai me tratava. Paredes envidraçadas, toda a redação via as gargalhadas que dávamos discutindo os editoriais.

Uma tarde modorrenta, um frio colossal ameaçando epidemia de resfriado em focas e pingüins, eu lia uma revista e me detive em um comentário sobre Drummond - para quem não é íntimo, Carlos Drummond de Andrade.

Na hora, pensei numa pauta. Telefonei para uma conhecida e descolei seu telefone. Liguei, ele mesmo atendeu. Bastante cordial, concordou com a conversa, mas não naquele momento, tinha um compromisso. Que eu telefonasse de novo à noite.

Havia lido alguns de seus livros na adolescência, comecei falando neles, mas nosso papo logo descambou para uma goiabada que alguém fazia em sua Gerais de menino, eu contei de uma galinha ensopada de minha avó, ele falou-me de um porquinho com abóbora e couve que não lhe apetecia muito (minha boca encheu-se d’água) e também de um outro porco, este assado, em que uma tia sua fora mestre.

Naturalmente, também falamos de literatura (recomendou-me a leitura de alguns autores, conhecidos seus) e, óbvio, de sua poesia.

Disse-lhe gostar muito de suas crônicas nos jornais e confessei ter-me apropriado de muitos de seus versos e de suas frases para convencer algumas lebres deslumbradas... digo, moças sensíveis, a fazerem algumas coisas nada inocentes comigo.

Por alguns instantes, fez-se silêncio no outro lado da linha. Imaginei que o houvesse ofendido e já estava pensando nas desculpas quando, do mesmo outro lado da linha, ouvi uma deliciosa gargalhada.

— Pelo menos, algumas de minhas palavras serviram para umas safadezas gostosas! Que bom, rapaz! – riu, feliz da vida, menino de novo.

Acabei perdendo a queda de braço com o filho do dono do jornal e fui demitido algumas semanas depois. Minhas anotações, cifradas em estenografia, ficaram em alguma das gavetas. Nunca escrevi a “reportagem” com o Poeta.

Morreu em agosto daquele mesmo ano.

Daquela nossa conversa, ficou mesmo só sua gostosa gargalhada, ainda hoje presente em meus ouvidos. E, como o retrato de sua Itabira na parede, ainda me incomoda.

Diorindo Lopes Júnior - diorindo@uol.com.br

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