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Certidão atesta nascimento em Bauru

Ieda Rodrigues e Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 4 min

O JC teve acesso a um documento que atesta que o supervisor de obras Carlos Alberto de Souza, 38 anos, o suposto Carlinhos que foi seqüestrado no Rio de Janeiro em 1973 quando tinha 10 anos, nasceu em Bauru e é filho de Maria Izabel de Souza. O nascimento foi registrado no Cartório de Registro Civil da Vila Falcão no dia 12 de outubro de 1965, 19 dias após o menino ter nascido.

O mistério deve ser esclarecido dentro de dez dias, quando o resultado do exame de DNA feito ontem por Carlos Alberto irá dizer se ele é ou não Carlos Ramires da Costa, o Carlinhos. Ele não se lembra da sua infância, apenas de uma viagem de caminhão quando tinha cerca de 10 anos. Também irá realizar o mesmo exame Maria da Conceição Ramires da Costa, mãe do menino seqüestrado no Rio.

Na certidão de nascimento, consta que Carlos Alberto nasceu em uma casa na rua Nicola Constantino, 1-79, na Vila Popular Ipiranga, no dia 23 de setembro de 1965, como Maria Izabel garante ter ocorrido, apesar de não ter fotos do bebê.

O documento não traz o nome do pai da criança que, segundo Maria Izabel é Lino Medeiros Filho. Ele só veio a conhecer Carlos Alberto quando o menino já era adolescente. Na certidão ainda constam os nomes dos avós maternos - Silvio de Souza e Ana Terezinha de Souza - que criaram Carlos Alberto e já faleceram.

Outro documento que indica que Carlos Alberto é membro da família Souza é o registro na escola Vera Campagnani, localizada no Jardim Redentor. “Temos dois registros de Carlos Alberto de Souza na escola. Um deles, o que está registrado como filho de Silvio Souza e Ana Terezinha Souza, estudou em 1973 e 1974, 1.ª e 2.ª séries”, conta Iara Correa, diretora da escola.

Porém, no histórico não há nenhuma anotação que esclareça se Carlos Alberto foi matriculado no início do ano letivo ou após a data do seqüestro do menino Carlinhos no Rio de Janeiro, em agosto de 1973. No final de 1974, Carlos Alberto foi transferido para a escola Ana Rosa Zuicker D’Annunzziata, localizada no Núcleo Octávio Rasi.

Nesta escola, Carlos Alberto foi matriculado como filho de Maria Izabel e estudou de 1975 a 1980, de onde saiu com direito a ingressar na 6.ª série. O endereço que consta no histórico escolar é do Jardim Redentor, o mesmo que Carlos Alberto afirma ter morado na sua infância.

Além dos documentos, Lino Medeiros Filho, 63 anos, que acredita ser o pai de Carlos Alberto, garante que quando separou-se de Maria Izabel ela estava grávida. Depois disso, Medeiros Filho viu Carlos Alberto, pela primeira vez, quando o menino tinha 17 anos.

Para ele, a possibilidade de Carlos Alberto ser Carlinhos, o menino seqüestrado no Rio, não tem fundamento. Como já havia explicado Maria Izabel, que é morena, Medeiros Filho conta que Carlos Alberto tem os olhos e a pele da semelhantes aos da avó paterna. “Minha mãe era clarinha, com olhos da cor dos dele (Carlos Alberto)”, diz ele.

Maria Izabel afirma que, quando ficou grávida, morava com os pais no Jardim Cecap, bairro em que Carlos Alberto teria vivido durante os primeiros anos de vida, antes da família se mudar para o Jardim Redentor. A informação é sustentada pelo aposentado Renato Krem Bueno, que se recorda da gravidez da mãe do supervisor de obras.

Bueno lembra que o fato de Maria Izabel ser mãe solteira chamou atenção na época. “Isso não era muito comum”, comenta. Porém, no Jardim Redentor, as diferenças físicas entre Carlos Alberto e os parentes sempre despertaram a curiosidade dos vizinhos. “A gente achava estranho que ele fosse o único loirinho”, afirma a dona de casa Devanira Aparecida Assumpção Fontes.

O aposentado João Pires concorda com o comentário. “Ele não era nada parecido com eles”, diz. A possibilidade de Carlos Alberto ser o menino Carlinhos foi levantada pelo Programa SOS Crianças Desaparecidas.

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Como foi o seqüestro

No dia 2 de agosto de 1973, Carlos Ramires da Costa, o Carlinhos, então com 10 anos, estava na residência em que a família morava, na Rua Alice, Zona Sul do Rio de Janeiro, quando um homem mascarado e armado invadiu a casa e o seqüestrou. A mãe e quatro dos seus seis irmãos assistiram a cena.

Antes de fugir, o seqüestrador deixou um bilhete exigindo 100 mil cruzeiros de resgate, o equivalente, hoje, a cerca de R$ 50 mil. A polícia montou uma operação para prender o bandido no local combinado para a entrega do dinheiro, mas ninguém apareceu para buscá-lo.

O caso ganhou repercussão em todo País, sendo noticiado no JC no dia 4 de agosto de 1973. Desde então, o desaparecimento de Carlinhos se transformou em um mistério sem solução. Três pessoas chegaram a ser presas e apresentadas como responsáveis pelo seqüestro, mas a própria polícia assumiu dias depois que se tratava de um engano.

O pai de Carlinhos, João Mello da Costa, também chegou a ser apontado como suspeito e acabou preso, mas nega envolvimento no caso e foi liberado por falta de provas. Ele se separou da esposa em 1976.

Em março do ano seguinte, uma irmã de Carlinhos apontou Sílvio Azevedo Pereira, funcionário do laboratório do pai, como autor do crime. Condenado a 13 anos de prisão, ele recorreu e foi absolvido.

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