Na formação dos povoados brasileiros, os posseiros ou proprietários de terra doavam a algum santo e à fábrica da Igreja Católica uma área central do nascente povoado, onde seria erigido o templo de orações. Em redor dessa igreja formava-se a praça principal do lugarejo.
Sem que diferenciasse uma da outra, a praça ao redor da novel igreja, tornou-se nos tempos de antanho o ponto de encontro e de reuniões da população, quando ainda não havia rádio ou televisão. E, com pouquíssimas exceções, a praça principal sempre teve seu coreto.
No início da noite de cada final de semana, nele realizavam-se retretas, quando uma banda ou orquestra local executava do popular “Tico Tico no Fubá”, de Zequinha de Abreu até a clássica “Pastoral”, de Beethoven. Os freqüentadores da praça, fosse em Bauru ou Franca do Imperador, Campinas ou Piracicaba, Dois Córregos ou Jaú, se deliciavam com aqueles momentos de arte e reflexão musical.
A mesma praça, numa cidade ou outra, além de testemunhar as missas solenemente realizadas na igreja nela existente, sustentava o “footing” que os jovens faziam, circulando os rapazes em sentido contrário das moças, com o intuito de se olharem e, quem sabe, iniciar um namoro.
Namoro também, que as meninas Filhas de Maria almejavam quando conseguiam realizar na saída da missa, sempre acompanhadas de um irmãozinho mas livres do rígido policiamento de seus pais, um flerte com moços para os quais tinham admiração.
Na praça que assistiu muitas quermesses, havia ainda o pipoqueiro, o homem do quebra-queixo, o sorveteiro, o carrinho de algodão doce, o lambe-lambe e outros ambulantes que ofereciam os seus produtos aos presentes. Na praça, nas tardes dominicais, as crianças brincavam e promoviam algazarras.
Nos bancos sentavam as patroas e os seus sisudos maridos, continuando conversas iniciadas com seus vizinhos nos finais das tardes de todos os dias, nas ruas onde moravam, quando cada um trazia seu banco ou cadeira e puxava uma prosa sem fim e sem conseqüências, num mundo onde a comunicação ocorria entre pessoas, frente a frente uns dos outros. Somente os jornais traziam notícias diferentes.
Bauru teve a sua praça principal nascida na areia branca, onde alguns parentes meus, inclusive meu avô, fincaram uma tosca cruz antes de que se construísse a Igreja. E essa praça, denominada Municipal antes de ser Rui Barbosa, se diferenciou das demais em decorrência de duas coisas inusitadas que nela ocorreram: na Velha República, uma Câmara Municipal dissidente; nos anos sessenta, a presença de uma araponga seresteira, que desenvolvia seus dotes musicais durante a noite.
A Câmara Municipal dos políticos dissidentes, contrária àqueles que foram empossados na eleição regular, extinguiu-se quando as forças que se confrontavam, sentaram, conversaram e restabeleceram a normalidade.
A araponga atuou nos verdejantes jardins da praça que, orgulhosa, ostentava seu belo lago repleto de peixinhos. Próximo desse lago funcionou um pequenino zoológico improvisado, cercado com tela de galinheiro, tendo patos e outros pequenos bichos. A araponga era uma ave de pequeno porte ali presente. Detentora de um trinar metálico cujo som ecoava longe até altas horas da noite e incomodava os moradores da vizinhança. Um dia deram-lhe um fim e a paz voltou a reinar naquele bucólico pedaço.
O autor, Irineu Azevedo Bastos, é escritor, historiador e colaborador do Ju Machado Escritório de Arte.