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Queda do Palace 2 completa seis anos

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

Há exatos seis anos, a vida da bauruense Rosana Bacellar Nunes e de sua família mudou radicalmente. Com a vida estável, morando num belo apartamento com vista para o mar na Barra da Tijuca, um dos bairros mais nobres do Rio de Janeiro, a família viu tudo se transformar em pó na madrugada do dia 22 de fevereiro de 1998, quando o Palace 2 desabou.

A tragédia, que chocou o País, matou oito pessoas e deixou centenas sem lar e, em muitos casos, sem laços com o seu passado. “É uma coisa que choca muito, você tem tudo numa hora e em outra não tem nada, só tem a roupa do corpo. Não tem nem uma escova de dentes”, diz Rosana, que há dois meses voltou para sua cidade natal.

Nesses seis anos, Rosana, mãe de três filhos (duas meninas e um menino), esteve à frente dos moradores lutando por indenizações justas para todos e escreveu, com a jornalista Eliane Dornelles, um livro sobre o episódio, “E Tudo Virou Pó...”, no qual narra os momentos de tensão e tristeza pelos quais os moradores do edifício passaram.

“Felizmente eu saí dessa história sã, tem muita gente que, se tivesse passado pelo que a gente passou, estaria internada”, avalia Rosana. Ontem, ela recebeu a reportagem do JC para uma entrevista no seu apartamento em Bauru, coincidentemente, localizado no 15º andar, o mesmo no qual morava no Palace 2. Hoje, vai com a família à missa na Igreja Santa Terezinha, na qual a data e as vítimas da tragédia serão lembradas.

Jornal da Cidade - Há quanto tempo você e sua família moravam no Palace antes do desabamento?

Rosana Bacellar Nunes - Moramos lá por uns seis meses. A gente tinha comprado o prédio há um ano e meio. Ficamos um ano e meio reformando o apartamento. Eles atrasaram a entrega das chaves. Amanhã (hoje) completará exatamente seis anos do dia em que ele caiu.

JC - O que você se lembra daquela noite?

Rosana - Estava muito quente e à tarde tínhamos ido a um parque temático no qual eu “andei” num brinquedo que é um elevador que despenca de uma vez. De madrugada acordei com um estrondo muito grande. Foi como se eu tivesse sonhado que estava no brinquedo do parque ou tivesse tido aquela sensação de cair quando a gente está meio dormindo. Era o prédio que tinha dado uma tremida, mas eu achei que fosse um trovão. Olhei pela janela e vi a lua, o céu. Voltei para a cama, era 1h30 da manhã. Às 3h, uma amiguinha das minhas filhas ligou pelo interfone avisando que tinha alguma coisa errada com o prédio e que era para a gente descer porque todos estavam lá embaixo. Acordei todo mundo e descemos de elevador, achando que já éramos os últimos. Quando descemos havia umas 300 pessoas lá embaixo. Muito mais do que oito pessoas teriam morrido se o prédio não estivesse tão vazio. Era Carnaval e o carioca sai da cidade quando é feriado.

JC - Ninguém teve tempo de pegar nada?

Rosana - Não, eu não peguei nada. Na hora eu fiquei perto do engenheiro da Defesa Civil e ele acreditava que seria o caso de fazer uma sapata para sustentar o prédio, que ele fosse ficar interditado por alguns dias. Ninguém acreditava que ia cair, tanto que teve gente que estava salva, viva, subiu para pegar alguma coisa no apartamento e morreu. Teve um menino que morreu quando subiu para pegar biscoito para as crianças que estavam lá embaixo com fome.

JC - No térreo não era possível ver sinais de queda?

Rosana - O prédio era revestido de mármore por fora, que quase não trinca, ele estufa. Tinham algumas partes no segundo andar que estavam estufadas. Eu ainda conversei com a dona do apartamento do segundo andar e a gente achava estranho, mas não que ia cair. De repente foi um estrondo muito grande, como se tivessem jogado uma bomba no prédio. A gente saiu correndo, as pedras caiam do prédio, cada um correu para um lado e a gente não sabia quem tinha morrido. A impressão que dava era que o prédio iria provocar um “efeito dominó” e cair em cima do outro. Se isso tivesse acontecido teria sido uma matança.

JC - Entre vocês acordarem e o prédio cair, quanto tempo se passou?

Rosana - Mais ou menos uma hora. Eu estive com algumas pessoas que morreram um pouco antes, isso que é triste.

JC - Você lutou muito ao lado dos outros moradores por uma indenização justa. E agora que está mais distante?

Rosana - Agora que eu não estou mais lá, vejo o escudo que eu estava sendo. As pessoas me ligam e dizem como estão as coisas... Eu saí da associação dos moradores porque não era fácil e fica mais complicado quando você vê que o seu advogado também não está ajudando. Troquei de advogado por isso. Mas eu já estava muito exposta, a televisão me procurava, quando eu morei numa casa tinha gente que de vez em quando ficava na minha porta... Então, não dava para ficar num lugar onde você fica com medo o tempo todo. Eu queria voltar a ter uma vida normal. Mas não sei, acho que eu mudei depois disso tudo. Hoje em dia eu luto mais pelos meus direitos e fico indignada quando vejo que os direitos dos outros não são respeitados.

JC - Nas últimas semanas Sérgio Naya voltou a ser notícia porque teria vendido bens bloqueados, teve prisão decretada e depois negada... Você tem esperança de que a situação se resolva com justiça para as famílias?

Rosana - É muito complicado... A gente sempre tem esperança que o problema se resolva, mas isso pode ser muito demorado. Infelizmente o ser humano não é fácil. Se as pessoas todas trabalhassem dignamente... Mas nem todo mundo é honesto.

JC - Você já falou com o Naya?

Rosana - Uma vez, na frente da Polícia Federal, com ele cercado de “jagunços”, eu bati na cara dele com um monte de jornais que tinha na mão. Nunca tive alvo melhor. Mas eu falei para o meu advogado que quero conversar com ele pessoalmente. Quero pedir para ele pagar logo essas pessoas e se livrar disso. É difícil porque a gente sempre fica com um intermediário... O que acontece é que existem interesses. Para os advogados é interessante que não seja resolvido, eles estão ganhando mesmo. Se eles resolverem, acaba o leite da teta. É um absurdo.

JC - Você conseguiu algum tipo de acordo?

Rosana - Eu lutei por uma parte e consegui pegar, mas continuo lutando por correção, juros... Não tivemos nada. O que eu estava vendo é que isso não ia acabar nunca, mas minha vida também não vai acabar por isso. Não acabou e nunca vai acabar. Sempre vai haver uma ferida, mas agora eu estou tentando ver se mudo de posição, luto pelo Palace ou por outras coisas, outros ideais, ou para ver outras pessoas felizes. Tem horas que eu fico com vontade de ajudar as pessoas, de lutar por direitos. Hoje eu vou a um lugar e quero ser bem atendida, quero ter meus direitos respeitados, quero ser brasileira. Infelizmente, aqui no Brasil tudo tem que ser na briga porque sempre vai ter um Naya na sua vida, uma pedra no caminho que você vai ter que escalar, subir “no bico”. Aí, quando você termina vem outra e depois outra.

JC - Hoje você mora no 15.º andar de um prédio, como era no Palace 2. Foi proposital?

Rosana - Foi um desafio. Eu acho que a gente não pode falar “eu tenho medo”, “eu não quero fazer”. Era no mesmo 15º andar mas eu sabia que não ia acontecer de novo. O que eu tinha receio era das pessoas, de que elas soubessem que eu era do Palace. Passamos por uma discriminação depois do desabamento, as pessoas olhavam pra gente como se tivéssemos uma carga negativa. Em todo lugar que mudamos aconteceu isso. Só mudou quando eu escrevi o livro e elas leram. Antes disso tinha aquela coisa: “olha, você está morando aqui, mas não é para o prédio cair, hein?”. Nunca fomos bem recebidos. Agora, graças a Deus eu estou sendo bem recebida em Bauru. Não tenho vergonha de dizer que sou do Palace para ninguém. Sou uma vitoriosa por ter saído de lá sem seqüelas. A única coisa que sobrou foi esse desejo de batalhar pelos meus direitos, pelos direitos das pessoas.

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O desabamento

O edifício Palace 2 ficava num bairro nobre do Rio de Janeiro a Barra da Tijuca. Construído pela Sersan, empresa do engenheiro e ex-deputado Sérgio Naya, era uma construção revestida de mármore, luxuosa como muitas outras da região. Na madrugada do dia 22 de fevereiro de 1998 o prédio desabou parcialmente, matando oito pessoas e deixando dezenas de famílias desamparadas, praticamente apenas com a roupa do corpo.

Dias depois, o resto do prédio teve que ser implodido para evitar um acidente maior.

A causa da tragédia foi a falta de resistência da estrutura do prédio para suportar o seu próprio peso. Logo após o desabamento, peritos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), do Rio de Janeiro, concluíram que houve um erro de detalhamento: os cálculos estavam corretos, mas houve um engano na hora de repassá-los para as plantas de ferragens.

Como conseqüência, duas pilastras foram feitas para sustentar 230 toneladas e não 480, como seria necessário. Os peritos também concluíram que houve erro na execução da obra e uso de material de baixa qualidade no acabamento.

Depois da tragédia, Sérgio Naya perdeu o mandato de deputado, mas continua em liberdade. Algumas famílias entraram em acordo com a Sersan e receberam valores que, segundo Rosana, “eram ridículos”. Outras famílias continuam vivendo em hotéis às custas da construtora enquanto aguardam na Justiça o recebimento de uma indenização justa.

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