Entra ano, passa ano, sai ano, todos os anos acabam sendo a mesma coisa: chuva, chuva, muita chuva e destruição. Neste não está sendo diferente, embora o Nordeste esteja experimentando uma “abundância líquida” como fazia anos não se via. Provoca até a impressão de que, agora, em parte a profecia se realiza: o sertão virando mar. Tantos e tantos anos os moradores clamaram contra a devastação das secas, parece até que, de repente, os Céus, exaustos de tantas preces, resolveram atender a todas – de uma única vez.
Petrificadas pela inclemência do sol, as terras não puderam permitir a natural infiltração de tamanha profusão aquática em suas entranhas. Então, enfurecidas, as águas procuraram seus próprios caminhos, criando novos e caudalosos rios onde, antes, só existia pedras e terra batida, ressecada. Surpreendidos e atropelados pelo inesperado da volumosa companhia, os já existentes rios assoreados e açudes ultrapassaram suas margens e represas, com os resultados destruidores que todos conhecem.
Irreparáveis prejuízos humanos e materiais inevitáveis à parte, não posso deixar de ver alguma poesia nesta manifestação reativa e devastadora da nossa tão mal-tratada Natureza. Muita gente ficou feliz com a fartura líquida que lhe caiu das nuvens. Creio que minha primeira lembrança literária do Nordeste vem da leitura de Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Ainda posso sentir a secura que tomou conta de minha garganta naquele momento e saí correndo atrás de um copo d’água.
Alguém aí pode perguntar: “Por que falo do sofrimento/alegria do nordestino e não das agruras que minha São Paulo, esta difícil senhora de 450 anos, sofre com águas de idêntica origem”? Vergonha, talvez. O Estado todo padece, como todos os anos. Se no Nordeste pode-se até dar algum desconto às autoridades e pilheriar com os Céus, aqui no Sudeste, não. Pode não chover uma gota o resto do ano, mas entre janeiro e março não há surpresa. Haveria se não houvesse água – e destruição, enchentes, desabamentos, deslizamentos, desabrigados, prejuízos pessoais incalculáveis, etc.
Prefiro não falar (para não chatear a paciência de vocês) da incompetência dos poderes públicos (limpando bueiros e córregos, por exemplo, preventivamente, durante o ano) ou da falta de educação de parte da população, que joga lixo nas ruas. O mesmo lixo que se junta em algum lugar e entope o fluxo das águas dos Céus. Por que “chovo no molhado?”, perguntar-me-á o leitor. Porque, finado fevereiro, as águas dos marços virão fechar o verão – como sempre vêm. E já não contamos mais, entre nós, com Tom Jobim para nos fazer canções-poesia com elas.
Diorindo Lopes Júnior