Tribuna do Leitor

Professora sim, tia não


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A edição do JC (3/2, pág. 8) publicou entrevista concedida pela pedagoga Madalena Freire, coordenadora geral do Espaço Pedagógico em São Paulo, que esteve dia 31 de janeiro aqui, para ministrar a aula inaugural do Curso de Formação de Educadores de Bauru, promovido pela instituição de que é coordenadora.

A leitura da reportagem me fez lembrar do professor Paulo Freire, conhecido nacional e internacionalmente, falecido em 2 de março de 1997, pai da pedagoga Madalena Freire.

No início dos anos da década de 1960, de uma idéia relativamente simples de alfabetizar adultos, o professor Paulo Freire passou de professor desconhecido a ícone da esquerda brasileira. Com seu método conseguiu alfabetizar 300 trabalhadores rurais numa cidade do interior do Rio Grande do Norte, em apenas 45 dias. Três anos depois, a técnica de Freire era divulgada em todo o país pelo presidente João Goulart. O sucesso durou pouco, com a deposição de Goulart, Paulo Freire é preso e exilado. Passou 15 anos fora do Brasil. O ilustre e saudoso professor deixou 25 livros publicados em 35 idiomas.

Dizia o professor Paulo Freire: “A única coisa capaz de formar um ser humano é a consciência crítica, a capacidade de pensar seu ambiente e suas relações. Alfabetizar é isso, não é aprender a escrever o próprio nome num papel.” “Não se formará um Brasil sem que se modifique o ensino, formando cidadãos. Que as pessoas sejam alfabetizadas de forma a não só ler, mas entender e decodificar o mundo. E que sejam capazes de se apropriar dessa linguagem para se expressar. A curiosidade humana é a fonte do aprendizado.”

A reportagem em referência, traz o título “Educador precisa estudar mais”, e me fez lembrar o livro de Paulo Freire “Professora sim, tia não” (Editora Olho d’Água, 1993). O autor diz ser necessário compreender o enunciado “Professora sim, tia não”, esclarecendo: Não é opor a professora à tia, como também não é identificá-la ou reduzir a professora à condição de tia. Explica: a professora pode ter sobrinhos e por isso é tia, da mesma forma que qualquer tia pode ensinar, pode ser professora, assim, trabalha com alunos. Porém, essa situação não significa que a tarefa de ensinar transforme a professora em tia de seus alunos, da mesma forma como uma tia qualquer não se converte em professora de seus sobrinhos só por ser tia deles. Afirma, ensinar é profissão que envolve certa tarefa, certa militância, certa especificidade no seu cumprimento, enquanto ser tia é viver uma relação de parentesco. Ser professora implica assumir uma profissão, enquanto não se é tia por profissão.

Na análise do mote “professora-tia”, Freire entende muito negativo essa tendência de desvalorização profissional representada pelo hábito há cerca de três décadas, de transformar a professora num parente postiço. As discussões referentes a esta questão, o autor indica o livro “Professora primária - mestre ou tia”, de Maria Novaes (Cortez Editora, 1984).

Ressalta Paulo Freire que, recusar a identificação da figura da professora com a tia, não significa, de modo algum, diminuir ou menosprezar a figura da tia, da mesma forma como aceitar a identificação não traduz nenhuma valorização à tia. Pelo contrário, significa retirar algo fundamental à professora - sua responsabilidade profissional de fazer parte à exigência política por formação permanente. Identificar professora com tia, o que foi e vem sendo enfatizado principalmente em todo o país, é, afirma, quase proclamar que professora, como boas tias, não devem brigar, não devem realizar-se, não devem fazer greve. É em última análise descaracterizar todo o embasamento técnico-pedagógico da formação específica dos professores como profissionais do ensino, para o exercício do magistério. Neste particular, Freire exemplifica citando um fato ocorrido durante uma greve dos professores do magistério estadual de São Paulo: algumas mães reclamando da paralisação das aulas, acusavam os professores de prejudicar seus filhos, descumprindo o seu dever de ensinar e educar. O presidente da Apeoesp, na época, professor Gumercindo Gilhomem, num programa de televisão rebatendo as mães disse que havia um equívoco na acusação. Mostrou às mães que os professores em greve estavam ensinando, estavam dando aos seus alunos pelo seu testemunho de luta, uma lição de democracia. Comporta lembrar também, reforçando este aspecto, as afirmações do ex-presidente do Centro do Professorado Paulista, prof. Sólon Borges dos Reis, sobre os deveres e direitos dos professores. O professor tem deveres para com a sociedade. A sociedade, a família, a pátria, podem exigir que o professor seja bem formado, seja humano, tenha desprendimento, seja assíduo e pontual. Mas, os professores também têm o direito de esperar da sociedade, da família e do Estado, condignas condições de vida, condições de trabalho e autonomia profissional.

Finalmente, o exercício do magistério não é sacerdócio e nem prestação de um serviço filantrópico. Ser professor(a) é profissão. Quer isto dizer que, a designação correta é professor ou professora, para quem exerce o magistério, e não tia ou tio. Quem não se valoriza por si se enjeita.

Rodolpho Pereira Lima - professor aposentado do magistério estadual

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