Todas as vezes que penso em fazer uma pesquisa, lembro-me perfeitamente da figura de um grande amigo que já nos deixou, o professor filósofo José Romão. Dizia ele que era difícil encontrar entre as produções dos alunos aquilo que realmente se poderia considerar um trabalho de pesquisa. E acrescentava ironicamente: tem trabalhos que nem cupim come. Essas lembranças me levaram, então, a refletir e a me perguntar: como identificar uma pesquisa como sendo científica? Talvez essa não seja uma tarefa fácil para poucas linhas, já que implicaria em estabelecer inúmeras características. Contudo, poderemos apontar algumas delas que, sem dúvida nenhuma, delinearia ao menos alguns de seus principais fundamentos.
Inicialmente, é imperioso ressaltar que uma pesquisa, para ser científica, deve ser crítica-racional, o que significa dizer que deve ser constituída por conceitos, juízos e raciocínios científicos, fruto das avaliações intelectuais e das reflexões, e não apenas instada por sensações, imagens ou modelos de conduta. Na verdade, toda pesquisa científica passa pelas regras da lógica para se chegar a novas idéias. Assim, é racional porque o conjunto das proposições e conclusões do trabalho se organiza em sistemas, incorporando-se às teorias já existentes ou criando-se novas que então serão agregadas ao conteúdo das ciências.
A objetividade é outro ponto importante, dado que os conhecimentos não podem ser fruto do achismo ou da opinião. Na verdade, o objeto, o fato ou o fenômeno deve falar por si. Sempre que possível o investigador deve usar os meios de observação, investigação e experimentação para estabelecer as leis de causa e efeito. O pesquisador, portanto, parte dos fatos e sempre volta a eles. Mas isso não é tudo. A pesquisa deve transcender aos fatos ou fenômenos, o que implica em explicar e produzir novos conhecimentos. A pesquisa, sem dúvida, seleciona aquilo que é relevante e, sempre que possível, reproduz, altera e acrescenta algo novo ao conteúdo existente. Não se pode contentar em descrever as experiências alcançadas, mas antes se deve sintetizá-las e compará-las com outros fatos.
O conteúdo de uma pesquisa deve passar pelos procedimentos de análise e síntese, ou seja, o pesquisador busca decompor o todo em partes menores, e a seguir agrupá-las em uma totalidade, de tal sorte que o resultado seja o de decomposição e composição, o que podemos denominar de dialética científica. Toda pesquisa deve ser clara e precisa. A clareza é um elemento fundamental para se evitar equívocos e erros. Na verdade, não há espaço para ambigüidades, o que implicaria em contradições e imprecisões. Outro ponto importante a ser considerado é que a pesquisa deve ser geral e comunicável, na medida em que sua linguagem deve ter o poder de informar a todas as pessoas o resultado obtido. Essa característica permite que outras pessoas possam criticar o trabalho, confirmando ou refutando os procedimentos adotados e as conclusões alcançadas. A pesquisa deve também passar pelo crivo da verificabilidade ou da demonstração, se se tratar de uma pesquisa experimental, e pelo crivo da argumentação, se se tratar de uma pesquisa explicativa. Outro elemento importante a ser considerado se refere à formalidade. Uma pesquisa deve seguir um método pré-estabelecido, ou seja, deve ser planejada com etapas pré-definidas e utilizar normas e técnicas já confirmadas pela ciência.
Deve ser ressaltado, também, que a pesquisa científica deve ser útil na medida em que é a resposta de um ou mais problemas que afligem a humanidade, ou seja, a geração de um conhecimento que implicará na solução das interrogações existentes. E finalmente, uma pesquisa deve ser ética, na medida que deve ser direcionada para o bem. Isso quer dizer que deve conter virtudes, ser moderada, justa e honesta. Um pesquisador, por sua vez, deve ter compromisso com a verdade, não direcioná-la para o mal do semelhante, não almejar o lucro desmedido, não ter interesse egoístico, não tomar como seu aquilo que foi desenvolvido por outras pessoas. Trabalhar pode se tornar uma obrigação, um fardo, mas pesquisar é sempre um prazer. Portanto, aos alunos que produzem seus trabalhos acadêmicos segue um alerta: não basta trabalhar, é preciso pesquisar. (O autor, Ivan José Abel, é professor de Filosofia e Metodologia das Ciências da Universidade do Sagrado Coração, é mestre em Direito e graduado em Filosofia, Pedagogia e Direito).