O Brasil tem tradição? Alguns acham que sim, outros que o Brasil ingressou na modernidade. Para o antropólogo Renato Ortiz, tradição e modernidade cultural mesclam-se de maneira peculiar no Brasil, numa dinâmica em que o tradicional e o moderno se interpenetram e promovem uma espécie de “tradicionalização do moderno”. O Carnaval brasileiro, em especial o de Bauru, gravita, dependente, em torno dessa dualidade: tradição e modernidade. O Carnaval é um projeto cultural que, como qualquer outro, passa por um projeto amplo de movimento da sociedade, da reflexão sobre a história da cultura, de articulação entre arte, movimento cultural e de comunicação de massa.
O Carnaval bauruense vive problemas estruturais e conjunturais que se iniciam com as dificuldades enfrentadas pelo produtor-criador para sobreviver, passam pelo alto custo de vida, pelo baixo salário e terminam interferindo na qualidade do produto criado, com estética e conteúdo marcados pela pobreza financeira, falta de incentivo, apoio e de informação, limitando o trabalho profissional ou “o amador” de ser profissional.
Entendemos arte enquanto elemento transformador da ordem institucional. Nesse sentido, para uma atualização constante da identidade cultural carnavalesca bauruense, são pressupostos básicos: a junção do tradicional e o moderno; abertura a novas possibilidades, e “sempre” na expectativa de criar e conservar algo real e perene, ainda quando tudo em volta se desfaz.
É interessante enunciar o conceito que o etnólogo Cliffort Geertz defende para cultura: “acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado à teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e sua análise”, e o Carnaval, esse emaranhado de significados, é cultura pública porque o seu significado o é, constituindo-se num dos produtos culturais marcantes, que juntamente com o domínio das mais variadas tecnologias, personaliza e reafirma a identidade e a auto-estima brasileira. Com satisfação, observamos que carnavalescos bauruenses, embora de maneira não sistematizada, já tratam o Carnaval como produto cultural, buscando constante atualização de conhecimentos técnicos, pesquisas, cursos, oficinas, palestras e outros.
Tito Pereira - Escola de Samba “Azulão do Morro”