Quem viveu os bailes do século passado costuma dizer que o Carnaval acabou, que o que se faz hoje não é Carnaval. Mas o salão lotado de crianças, adolescentes e adultos na matinê de ontem na Associação Luso-Brasileira indica o contrário. As coreografias substituíram a grande roda. Axé e rap ganharam a preferência nos palcos. Mas, se depender dos jovens, ainda haverá muito confete e serpentina nos salões.
De acordo com a secretaria do clube, que pelo segundo ano consecutivo realiza o Carnaval da Integração junto com o Bauru Tênis Clube (BTC), cerca de 2 mil pessoas participaram da matinê realizada na tarde de ontem.
O antigo hábito de pensar e confeccionar a própria fantasia deu lugar a um grande “bloco” vestindo bermudas, camisetas e tênis. Para colorir, adereços simples, como maquiagens, géis e fitas no cabelo.
Mesmo assim, ainda era possível ver algumas dezenas de bruxas, bailarinas, odaliscas, piratas e super-heróis espalhados pelo salão. O suficiente para que se fizesse um concurso de fantasias.
Mas, quem vê do alto, nota que a velha roda não existe mais. Os foliões agora mantêm-se enfileirados, acompanhando uma coreografia ditada pelos dançarinos da banda. O repertório do baile prioriza os “hits” mais tocados, dando destaque para axés e raps.
E quando a banda inicia uma seleção com as antigas marchinhas, muda totalmente o cenário. Boa parte dos jovens aproveita o “intervalo” para descansar. Enquanto eles saem por um lado, seus pais tomam conta da pista pelo outro. E aí é até possível ver um “trenzinho” circulando entre os foliões, mas só por alguns minutos.
Para Dora Martins, 11 anos, a principal diversão do baile é justamente seguir as coreografias. Ela diz que não conhece todas, mas que consegue acompanhar direitinho as instruções dos dançarinos da banda. Já na opinião da mãe, Célia Martins, 46 anos, isso não é brincar o Carnaval. “Na concepção antiga, o Carnaval acabou”, afirma.
“O que era bom para nós, a molecadinha de hoje não gosta”, comenta o bancário Carlos Alberto Faria Carrion, 41 anos. “Essa geração não conheceu as marchinhas. Embora eu não concorde com essas músicas e coreografias, temos que seguir”, salienta.
Ele conta com orgulho que foi justamente num baile de Carnaval que conheceu sua esposa, a professora Cássia Regina Zago Carrion, 38 anos. “Nós nos conhecemos no Carnaval de 1983 e hoje estamos aqui com dois filhos”, comemora.
O casal afirma que faz questão de levar os filhos ao Carnaval para que tenham oportunidade de estar com os amigos e ter o que contar no futuro. “Sou carnavalesca desde criança e mesmo sendo tudo tão diferente hoje, posso garantir que estou brincando e pulando mais que os meninos”, confessa a mãe.
Para a comerciante Neusa Celotto Dore, 47 anos, a mudança que se vê nos salões só reflete a tendência da moda. O filho dela, Fabiano Celotto Dore, 12 anos, diz que a música que ele mais gosta no baile é o rap. “Rap, para mim, não é música de Carnaval. Mas a moda agora é tocar rap e seguir coreografias. Cada época tem a sua moda e temos que segui-la”, pondera a mãe.
E como tudo é uma questão de opinião, a avó de Fabiano, Antonia Armelinda Celotto, 70 ano, diz que o Carnaval de hoje é ainda mais animado que o de sua juventude, pois dá mais liberdade ao folião. “Hoje eu freqüento os bailes da terceira idade, que são muito mais divertidos que os da minha juventude”, defende.