O início da Quaresma cristã ontem deu início também ao período de penitências que caracteriza esta época do ano. Todo ano, milhares de pessoas se privam de alimentos, bebidas e hábitos, como forma de participar do sofrimento do mundo e se sensibilizar pelos problemas do próximo. Mas nessas milhares de pessoas não estão inclusos os jovens católicos, hoje “com espiritualidade mais prática e menos espiritual”.
A afirmação é do padre Milton César Carraschi, da Paróquia São José Trabalhador, em Bauru. Segundo o padre, o jovem católico hoje tem a praticidade como característica. “Se pedir para arrecadar alimento, ou alguma outra coisa, eles vão com prazer. Mas se, por exemplo, pedir para rezarem o terço, ficam mais constrangidos”, exemplifica.
Carraschi conta que em sua paróquia a proposta de penitência é estendida a todos os fiéis, mas os jovens acatam menos. “Não há estatísticas para comprovar, mas o jovem hoje está fazendo menos penitência.”
A advogada e freqüentadora de grupo de jovens católico Claudia Morcelli Oliveira, 23 anos, explica o motivo: “Acho que ajudar as pessoas faz mais a vontade de Deus do que se punir. É mais útil.” Claudia, que não pratica penitência na Quaresma, explica que prefere sair para arrecadar alimentos, distribuir terços, executar tarefas mais práticas. “Mas rezar também é importante”, diz.
A opinião de Claudia é compartilhada pela estudante Veronica dos Santos Forato, 17 anos, coordenadora do grupo de teatro da Paróquia São José Trabalhador. “Gosto de ensaiar, me apresentar, não gosto de ficar parada”, conta. E explica que acha que a praticidade dos jovens vem da própria idade. “Somos mais agitados, gostamos de ir atrás, botar a mão na massa.”
Tanto Claudia quanto Veronica têm poucos conhecidos penitentes. Segundo elas, são raros os jovens hoje em dia que seguem as recomendações da igreja para a Quaresma.
Mais velhos
Ao mesmo tempo em que os jovens têm deixado de seguir algumas práticas da igreja, há os católicos tradicionais, que ainda não abandonaram as recomendações.
A dona de casa Doride Cassis da Silva, 70 anos, por exemplo, diz que desde os 7 anos sua mãe obrigava-a a se penitenciar na Quaresma. “Hoje tenho 70 e ainda obedeço”, diverte-se, dizendo que não come carne às quartas e sextas-feiras durante a Quaresma.
Doride acha que os jovens têm realmente abandonado alguns hábitos católicos tradicionais. “Sei que a igreja não obriga mais, mas me sinto mal se não fizer. Acabou virando hábito”, diz.
Significado
O padre Alberto Oselin, da Paróquia Nossa Senhora das Graças, explica que os 40 dias estabelecidos como preparação para a Páscoa têm três referências.
A primeira seria o tempo que Jesus Cristo ficou em jejum se preparando para sua missão, o mesmo que Moisés esperou no Monte Sinai para receber os dez mandamentos, a segunda referência. A terceira seria uma alusão aos 40 anos que “o povo de Deus passou no deserto antes de chegar à terra prometida”, explica.
Segundo o padre, porém, atualmente esses 40 dias são muito maleáveis. “Há 40, 50 anos, a igreja recomendava jejum e abstinência para todos os dias, e não só para as sextas-feiras, como atualmente”, conta. Mas o tempo tem mostrado que mesmo as regras mais tolerantes não funcionam para atrair jovens para a prática da penitência.
____________________
Campanha
O início da Quaresma também é o dia escolhido pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para o início da Campanha da Fraternidade. A edição 2004 da campanha tem o tema “Água, fonte de vida”.
Durante a apresentação do tema ontem, a CNBB divulgou dados sobre os recursos hídricos do País. Segundo a confederação, apenas 20% da população brasileira têm acesso à água potável, 40% da água das torneiras não tem confiabilidade, 50% das casas não têm coleta de esgoto e que 80% do esgoto coletado é lançado nos rios sem tratamento.
Recentemente, o coordenador da campanha da Diocese de Bauru, Francisco Ferreira Nunes, fez um alerta à reportagem do JC sobre a situação dos rios de Bauru e a conseqüente importância do tema na cidade.