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O ano da virada?


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O ano de 2004 será eleitoral, com eleições decisivas no mundo. Por isso, existe a probabilidade de que seja um ano de virada e clareza. As eleições mais esperadas são, desde já, as presidenciais dos EUA, que serão realizadas em novembro, porque podem marcar (ou não) o fim de um ciclo negro e muito complexo da história mundial. Na Espanha, no dia 14 de março, as eleições legislativas concluirão o período extremamente autoritário (para meu gosto) de José María Aznar e colocarão à prova dois novos líderes: Mariano Rajoy, galego, do governante Partido Popular (PP), e José Luis Zapatero, leonês e socialista do PSOE, que representam duas concepções radicalmente distintas da Espanha.

As eleições regionais francesas, também em março, serão igualmente significativas. A Frente Nacional de Le Pen aposta nelas o tudo ou nada. Por outro lado, a estratificação dos partidos, tanto de direita quanto de esquerda, pode adquirir um novo perfil e maior flexibilidade. Nas eleições na Rússia, também em março, o presidente Vladimir Putin é o grande favorito à reeleição, com pesquisas que lhe dão cerca de 75% das intenções de voto. No dia 13 de junho serão realizadas eleições européias que, pela primeira vez, serão feitas simultaneamente nos 25 Estados-membros e marcarão o início de uma nova e importantíssima fase da construção continental.

Nas eleições norte-americanas não estará em jogo apenas quem mandará na superpotência nos próximos quatro anos, como também uma certa concepção de ordenamento mundial. É um confronto entre duas Américas do Norte: a de Bush, fechada, zelosa de seu bem-estar, arrogante e com uma decidida vocação imperial, e a de Kerry, “liberal” na tradição de Roosevelt e Kennedy, empenhada com o social, idealista, aberta e pró-Europa. Há um mês, Bush brilhava imbatível: as pesquisas o colocavam em alta porque parecia que a economia melhorava, o desemprego diminuía um pouco e Saddam Hussein finalmente foi preso.

A América do Norte que o mundo ama e respeita - a “pátria da liberdade” - não tem nada a ver com a que Bush encarna: unilateralista, indiferente aos estragos que provoca, particularmente em matéria ecológica, inimiga das Nações Unidas, fanática no plano religioso e político, reacionária ao multiculturalismo e ao direito à diferença.

Como foi dito em uma recente reunião da Internacional Socialista, realizada em Madri, “a invasão do Iraque foi decidida não porque o governo Bush estivesse convencido de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, mas porque estava convencido de que não as tinha”. Queria uma vitória fácil, rápida e com baixos custos para mostrar sua força ao mundo islâmico - e não só a ele. Porque, do contrário, teria atacado a Coréia do Norte ou o Irã, onde, sim, havia armas de destruição em massa. Hoje, sabemos que as razões invocadas para o ataque foram meros pretextos.

Mas já é hora dos que foram enganados de boa fé terem coragem de fazer a autocrítica que se impõe. Tudo isto vai conviver conosco ao longo de 2004 e repercutirá em inumeráveis debates relativos às eleições programadas. Como somente a verdade é portadora de soluções e progresso, sem ela não teremos paz nem venceremos o terrorismo.

O autor, Mário Soares, foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996.

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