Não fosse a possibilidade de uma vitória brasileira a entrega do Oscar, anteontem em Los Angeles, teria sido das mais chatas para se acompanhar pela televisão. Depois de alguns anos assistindo o show da Academia é possível perceber, logo no início, qual vai ser o tom da noite.
A coisa começou a cheirar Terra-Média quando vieram os prêmios de direção de arte e maquiagem e a equipe de “O Senhor dos Anéis”, começou a se levantar em peso para agradecer até o último kiwi da Nova Zelândia. O filme tinha 11 indicações e era o favorito, o que, obviamente apontava para a vitória na maioria dos prêmios. Maioria, mas todos?
A série tem infinitos méritos técnicos e assim, deveria revertê-los em estatuetas, mas seria estranho supor antes da entrega que a Academia iria ser tão generosa. Não havia nem razão para isso, já que os dois primeiros capítulos da saga tiveram um grande número de indicações mas só venceram em seis categorias.
Mas aconteceu, o filme de Peter Jackson levou todos os prêmios, confirmando a suspeita de que a Academia esperaria o fim da saga para coroá-la, e transformou a longa cerimônia num tédio só. Aos outros filmes restou vencer nas categorias por onde Gandalf e Cia. não haviam passado. Assim, “Mestre dos Mares” levou dois prêmios técnicos (edição de som e fotografia) e “Sobre Meninos e Lobos” mais dois de interpretação. Aliás, nessa área também não houve surpresas: Sean Penn, Charlize Theron, Tim Robbins e Renée Zellweger eram os mais cotados e levaram.
Como “Procurando Nemo” e “Invasões Bárbaras” eram favas contadas e venceram merecidamente, a única vitória até certo ponto inesperada que mereceu comemoração foi o prêmio de roteiro original para Sofia Coppola, que tem um grande futuro pela frente.
Participação brasileira
Ainda não vencemos desta vez mais a missão foi cumprida. Como Fernando Meirelles deixou claro em todas as entrevistas que concedeu antes do prêmio, o fato de ter sido indicado já era motivo de festa, independente do resultado. O que fica dessa aventura toda é a certeza de que o cinema brasileiro pode competir de igual para igual com qualquer outro, inclusive quando o assunto é técnica. Vencer prêmios, na verdade, é um detalhe.
A montagem de Daniel Rezende, a fotografia de César Charlone, o roteiro de Bráulio Mantovani e a direção de Meirelles não devem nada para os ganhadores do Oscar de anteontem. Ao contrário, não é ufanismo burro afirmar sem medo de errar que - pelo menos - a montagem e o roteiro de “Cidade de Deus” são muito melhores do que a montagem e o roteiro de qualquer um dos três “O Senhor dos Anéis”.
O importante agora é não perder a trilha de “Cidade” (que já era a trilha de “Central do Brasil”) e saber, além de produzir, vender o nosso peixe.
A Academia tem, a cada ano, aberto mais e mais as possibilidades para as produções estrangeiras competirem com grandes chances de vitória (“A Vida é Bela”, “O Tigre e o Dragão” e “Fale com Ela”, são alguns exemplos recentes). A nossa hora vai chegar.