Governar é fazer crer. O conceito, de Maquiavel, aplica-se cada dia mais ao Brasil. Basta ver o esforço do presidente Luiz Inácio para refazer a história recente do País. Assemelhando-se ao personagem central de “1984”, romance de George Orwell, que altera fatos do passado, eliminando provas e ajustando o presente com a adição de novos fatos, Lula, de maneira fantasiosa, vai tecendo a teia da realidade com pitadas crescentes de um messianismo assustador. Agora, em mais um evento litúrgico, uma feira exótica com o nome de Expo Fome (a que ponto chegou a necessidade de se conferir glamour à fome brasileira), o presidente garante que fez milagre em 13 meses de governo, arrematando que “Deus pôs os pés aqui” para dizer que se as pessoas tiverem juízo, “as coisas vão dar certo”.
Pois o nosso presidente não apenas acha necessário confessar que realizou um milagre, como aparecer na identidade de Moisés subindo o monte Sinai para buscar a Tábua com os dez mandamentos. Ocorre que o tempo vai passando, passando, e a terra prometida vai se transformando em quimera. O povo vai descrendo, e começando a retirar a confiança plena em Moisés. A vontade de descobrir o ponto de quebra passa a ser maior que o desejo de crer no maná que cairá dos Céus. É o que explica, por exemplo, a queda de 18 pontos percentuais na imagem presidencial no espaço de um ano, índice registrado pela última pesquisa CNT/Sensus. (...)
As unidades federativas estão administrando um pequeno comércio varejista, de atendimento rotineiro às demandas da micro-política. Mas não conseguem nem mesmo prestar socorro adequado às vítimas das enchentes que assolam o País. Vejam, por exemplo, o caso de São Paulo. Cerca de 30% dos recursos gastos com cada Centro Educacional Unificado (os Céus de Marta Suplicy) vão para a propaganda. Mas a prefeita corre a Brasília para pedir socorro a um Ministério sem recursos e a um ministro desmotivado.
As agências reguladoras, planejadas para funcionar de maneira independente, passam a ser monitoradas pelo Executivo, que tira e nomeia presidentes. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), em uma decisão que demorou dois anos para tomar, desfaz a compra da Garoto pela Nestlé, sob o argumento de abuso do poder econômico, deixando antever o casuísmo, quando se sabe que o caso da Ambev (fusão da Brahma com a Antarctica) é semelhante. A quebra do princípio da livre concorrência abre a insegurança no mundo dos investimentos. E a crença no Brasil vai para o fundo do poço. Noutra ponta, os registros são implacáveis: o Brasil é o 4.º no ranking mundial entre 96 países que mais gastam com juros (8% de todas as riquezas nacionais). O desempenho da indústria continua a decepcionar. Os empregos não aparecem. A perda do poder de compra dos salários ultrapassa 15% em um ano. Os buracos se multiplicam pelo território, onerando o escoamento da produção.
E a seara política? Continua regada pelas águas do fisiologismo. O sistema de atendimento no varejo está mais azeitado que no governo anterior. Com o combustível do aparelho do Estado, montou-se um gigantesco rolo compressor, hoje em torno de quase 400 deputados governistas. As oposições estão contidas nos limites do necessário até para que se possa garantir que não somos o México, onde o Partido Revolucionário Institucional (PRI) governou durante 71 anos, implantando uma “ditadura perfeita”, com eleições e pluripartidarismo. O PT está nesse rumo.
Nesse cenário, o presidente deita fala para arquitetar o seu Brasil particular. De tanto exibir autoconfiança, interpretar sonhos e narrar fantasias, o presidente pode cometer o erro da pastora de ovelhas que, por pura diversão, gritava todos os dias, provocando correria nos pastores: “É o lobo”. Um dia o lobo apareceu e teve um saboroso banquete, pois ninguém mais acreditava no alarme. A expressão de Lula, de tão banalizada, poderá cair no descrédito. Ora, quem acredita que ele fez milagres, como está dizendo?
O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político.