Há cidades pelas quais a gente se apaixona à primeira vista. É o caso do Rio de Janeiro onde basta olhar o mar, as montanhas, o céu, o calçadão de pedras portuguesas imitando as ondas... enfim, uma cidade curvilínea como deve ser uma mulher bonita.
Fácil gostar logo de cara, São Paulo já é outra coisa. É uma cidade para descobrir aos poucos. Primeiro você a odeia pelo trânsito caótico, as filas, a poluição, o sol-calor-chuva-frio, tudo no mesmo dia. Depois, devagarinho, o visitante ou o morador recente vai curtindo pelo inusitado, adora o gosto e o mau-gosto, “a grana que destrói e constrói coisas belas”, a “gourmandise”, o estilo de vida.
São Paulo é a quarta metrópole do mundo em tamanho, depois de Tóquio, México e Bombaim: Tem 10,5 milhões de habitantes. Cheia de mistérios e agradáveis surpresas.
O Mercado Central Paulistano, também conhecido com o Mercado da Cantareira ou, simplesmente Mercadão, é um desses locais da Capital que é impossível não gostar. A começar por aquele prédio neobarroco projetado por Francisco Ramos de Azevedo, cuja construção custou 10 mil contos de réis.
Antes da sua inauguração, em 1932, serviu de quartel-general das forças constitucionalistas de São Paulo que lutaram contra a ditadura de Getúlio Vargas.
Vitrais e a vida no campo
No último dia 25 de janeiro, o mercado completou 71 anos. Atualmente, passa por reformas. Os seus vitrais italianos com cenas pastoris e da vida no campo em tempo de colheita estão sendo restaurados.
Em maio, segundo o noticiado, o prédio estará pronto para abrigar, além dos boxes atuais, mais seis restaurantes, um museu e uma escola de culinária no mezanino.
Mesmo sob obras, ele não perde o seu charme. É gostoso percorrer os seus boxes que oferecem alimentos de alta qualidade vindos de todo o Brasil e de várias partes do mundo.
Seus barraqueiros são tradicionais, com décadas de serviços prestados no mesmo local, como o Leonardo, da família Chiappeta. Quando o rei da Noruega esteve lá, foi ele quem serviu bolinho de bacalhau para “Sua Majestade”.
Dizem que não existe nada mais misterioso do que cabeça de bacalhau. Chiappetta tem. A bochecha desse peixe é uma iguaria. A língua, mais ainda. Ingredientes caríssimos, mas, segundo dizem, vale quanto pesa. Para regar o bacalhau são cinco marcas de azeite de oliva, vindos da África do Sul, Grécia, Síria, França, Itália e por aí vai. Nada de furar lata com prego e martelo. Na casa ao lado, existem dosadores de óleo de oliva para dar um ar mais civilizado ao seu recipiente. E também facas para cortar cada tipo de queijo, fôrmas de bolos, de bolachas.
O que não tiver no Chiappetta tem no Rei do Bacalhau, inclusive os tipos do Porto, enormes e grossos. A Peixaria BR está há 44 anos no Mercadão. Procuradíssima pelos “chefs” de “cuisine” dos grandes restaurantes pelos filés de robalo, namorado e badejo, fresquíssimos. Camarões de todos os tamanhos já não são mais o “must” de grandes cozinheiros que estão preferindo tropicalizar os seus pratos.
Vai um sanduba de mortadela?
Fumo de corda? Na Charutaria Bruno ainda pode ser comprado o fuminho Tietê, amarelinho, campeão de vendas nos anos 40 e 50, no século passado. O Bar do Mané é um capítulo à parte. O homem ficou famoso com sanduíche de mortadela. Esse embutido era considerado comida de pobre.
Quando se queria dizer que o sujeito era metido à besta dizia-se que comia mortadela e arrotava peru. Hoje, carne de peru é baratíssima.
Jânio Quadros, quando se iniciava na vida pública, após os comícios sentava-se na calçada sem medo de sujar o sobretudo cheio de caspas nos ombros e lanchava mortadela no pão. O povo adorava a demagogia, tanto “que começou vereador e acabou presidente da República”. Hoje, senhores de ternos Ermenegildo Zegna e senhoras trajando Armani são vistas na barraca saboreando sanduíches de mortadela “light”, sem toucinho.
Ou então as mortadelas especiais com azeitonas ou pistaches. No pão francês fresquinho e crocante, não há quem resista. Ali, são vendidos 450 sanduíches por dia, inclusive os de tender, pernil e copa.
Em cada barraca, uma surpresa
Você sabia que feijoada, para ser “completa” como apregoam as tabuletas dos restaurantes, tem que ter 14 itens? Quem ensina é o seu Quintas, há 66 anos no mesmo lugar vendendo ingredientes para o mais famoso prato da culinária brasileira.
Pé de porco, orelha, rabo, língua, lombo, couro, costela, paio, lingüiça portuguesa, carne seca, feijão preto, folhas de louro, arroz e laranja seleta. Tornou-se nacionalmente famosa a Barraca do Juca, graças à telenovela da Globo “A Próxima Vítima”.
Justifica a fama a variedade e qualidade das frutas, algumas pouco conhecidas no Sudeste como a graviola, o sapoti, e a serigüela. Várias variedades “berries” (frutinhas silvestres) são cultivadas no Brasil como a amora, a framboesa, a “blueberry” nativa dos Estados Unidos. Há também frutas exóticas como mangusto, lichia, avocado.
Depois desse desfile de coisas apetitosas, a pausa tem que ser no Horca Bar, para um pastel de bacalhau. Em seguida, continue rondando as vielas. Em cada barraca, uma surpresa. O Porco Feliz vende leitões inteiros, rosadinhos, de dar dó dos bichinhos; costelas de carneiro, ossobuco, tudo limpíssimo. O olé fica por conta da Jamoneria Santa Tereza que nos faz lembrar o Museu Del Jamón, de Madri. Lá, é encontrado o famoso jamón serrano e o ultra-especial pata negra, pernil de um porco espanhol criado especialmente para virar presunto. Saia de lá pelo menos com meio-quilo de morcilla.
Para temperar suas aventuras culinárias existe o Mr. Joseph, o rei do temperos secos como o curry, tomilho, segurelha, páprica, hortelã. O chili mexicano, ardidíssimo, vem em conservas. Mostarda de Dijon, pimentas de cheiro, dedo de moça, malagueta e comari. Tudo pendurado na barraca favorecendo o visual.
Vale à pena uma visita ao Mercadão, um pedacinho imperdível de São Paulo. Quem vai uma vez, vai sempre.