Pesca & Lazer

Piracanjuba pode sair da 'lista negra'

Da Redação (com Agência Folha)
| Tempo de leitura: 4 min

Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) obtiveram sucesso na reprodução em cativeiro da piracanjuba, espécie de peixe que estava praticamente extinta. Típica das bacias hidrográficas dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, a espécie foi citada na Lista Vermelha da Fauna Ameaçada de Extinção do Rio Grande do Sul, em 2002. O peixe já desapareceu na Argentina e no Uruguai e, atualmente, a maior parte se concentra no Parque Estadual do Turvo (RS).

Para preservar a espécie, especialistas do Laboratório de Biologia e Cultivo de Peixes de Água Doce (Lapad) recolheram exemplares do peixe do rio Uruguai. Depois, com a injeção de hormônios, estimularam a desova que deu origem a 15 mil alevinos, hoje localizados na Estação de Piscicultura de São Carlos (SC).

Os pesquisadores esperam que o peixe seja criado por produtores da região, já que a piracanjuba é valorizado economicamente. A primeira desova foi obtida no mês de janeiro, na Estação de Piscicultura de São Carlos (EPISCar), em Santa Catarina.

A estação foi implantada por meio de uma parceria entre a UFSC, a Prefeitura Municipal de São Carlos e a Universidade Comunitária Regional de Chapecó (Unochapecó), com recursos do Fundo Nacional do Meio Ambiente.

Localizada nas proximidades das margens do rio Uruguai, no município catarinense de São Carlos, a Estação dá suporte ao desenvolvimento das pesquisas direcionadas aos estudos de peixes de água doce.

De acordo com o professor Evoy Zaniboni Filho, coordenador do LAPAD, integrado ao Departamento de Aqüicultura do Centro de Ciências Agrárias da UFSC, esta é a primeira desova em laboratório da piracanjuba nativa do rio Uruguai e seu impacto deverá ser de grande importância para preservação da espécie. “Esta desova representa uma possibilidade de garantir a manutenção dos estoques naturais da piracanjuba”, comemora.

Ele explica que em Santa Catarina não há um documento que liste as espécies de peixes de água doce ameaçadas de extinção. No Rio Grande do Sul a "Lista Vermelha" foi organizada em 2002. “Mas certamente a espécie está igualmente ameaçada em Santa Catarina, simplesmente não houve ainda uma mobilização no estado para registrar as espécies com problemas”, avalia.

Espécie atrativa

A piracanjuba (que tem nome científico Brycon orbignyanus e é popularmente conhecida como bracanjuva, no Rio Grande do Sul) é uma das espécies de peixes com população mais reduzida na bacia do rio Uruguai. O seu desaparecimento em grandes trechos do rio revela sua intolerância às alterações introduzidas no ambiente.

O desmatamento da mata ao longo do rio e a conseqüente redução de suas fontes de alimento (esse peixe se alimenta principalmente de frutas e sementes), além da degradação da qualidade da água em função da poluição, estão entre as causas de seu desaparecimento.

A pesca intensiva desse peixe, considerado um dos mais saborosos na água doce e apreciado na pesca esportiva, também colaborou com a redução drástica de seus estoques naturais.

Sensível ao manejo

Diante destes problemas, a espécie vem recebendo atenção especial dos pesquisadores da UFSC. Os trabalhos na região foram iniciados em 1995 e vêm recebendo o apoio financeiro da Tractebel Energia, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Um dos maiores entraves para andamento dos trabalhos é a dificuldade de coleta dos exemplares na natureza.

Além disso, a piracanjuba é altamente sensível ao manejo de captura e transporte do rio até a Estação de Piscicultura de São Carlos (EPISCar).

No entanto, em 2003 oito novos exemplares foram capturados na natureza e estão bem adaptados à vida em cativeiro. Este ano, no dia 12 de janeiro, foi observada na Estação uma fêmea e dois machos que apresentavam características indicadas para serem submetidos ao processo de indução hormonal, necessário para induzir a maturação final gônadas e desova.

No dia 14 ocorreu a desova, com uma produção de 268 gramas de ovos, o que representa em torno de 322.000 ovos. Desta desova foi obtida uma taxa de fertilização de 96,8%, valor considerado muito alto para esta espécie, o que permitiu a produção aproximada de 311.000 larvas. A expectativa dos pesquisadores é de que esta desova produza mais de 15 mil exemplares adultos.

O sucesso na desova deve fortalecer as pesquisas com a piracanjuba, com foco em dois objetivos centrais. Um deles é o desenvolvimento de técnicas de cultivo e manejo da espécie. O outro objetivo é utilizar a espécie em programas futuros de repovoamento, depois que estudos permitam o reconhecimento dos melhores locais para soltura. As informações são da Agência Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Mais informações com professor Evoy Zaniboni Filho e-mail: zaniboni@cca.ufsc.br.

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