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'Holística é a medicina do futuro'

Da Redação
| Tempo de leitura: 8 min

Dia Internacional da Mulher (8 de março) também é dia de pensar em saúde. Mas não apenas a saúde física. No pensamento devem constar as variáveis profissional, social, emocional e até espiritual. É com essa visão que a médica ginecologista Regina Celi de Lima Happ, com apoio do Jornal da Cidade, virá a Bauru no próximo dia 10 proferir uma palestra, ou “um bate-papo, prefiro”, sobre o tema “Saúde holística e o papel da mulher”.

Happ é formada em medicina pela Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro, e pós-graduada na University of California, em Davis (EUA), onde pesquisou reprodução humana por sete anos. Atualmente, clínica e dá palestras sobre qualidade de vida e medicina preventiva. Tudo tendo como base a holística.

“Meus vícios são dois: batom e estudar”, brinca Happ, que apesar de proferir palestras desde 1991, diz que apenas nos últimos cinco anos ficou mais conhecida.

A ginecologista lembra de bate-papos com crianças de rua, adolescentes, pré-adolescentes, juízes, freiras e até prostitutas. Mas não esconde sua preferência: “Adoro chão de fábrica”, confessa.

Seu público total até hoje chega perto de 130 mil pessoas, das quais 1,3 mil apenas em uma palestra para mulheres budistas no ano passado, sua maior platéia. Mas a linguagem é a mesma utilizada para todos? Sim. “A realidade toda é a mesma: a falta de conhecimento do eu. E esse é meu propósito”, explica Happ.

Apesar do sucesso como palestrante, seu livro ainda não saiu da gaveta. O título, entretanto, já foi escolhido: “In the middle of nowhere” (“No meio do nada”, em inglês). “Tenho certeza de que vai sair. E pretendo que seja agora, no meu jubileu”, planeja a ginecologista, que completou 50 anos de idade em 2003. “Está chegando a minha hora.”

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao JC.

Jornal da Cidade - A senhora pode explicar de forma geral a diferença entre a visão holística da saúde e a alopata tradicional?

Regina Celi de Lima Happ - A responsabilidade sobre nossa saúde, nossa felicidade, é nossa, é minha, é sua, uma vez que já somos adultos. As pessoas imaginam saúde quando você está bem, sem uma doença diagnosticada, câncer, úlcera, asma, hepatite, diabete. Mas a saúde deve ser vista em seis dimensões: a saúde física, a profissional, a social, a intelectual, a espiritual e a emocional. E uma implica na outra. Você precisa estar inteiro nessas seis dimensões. Quando um adolescente tem síndrome do pânico, com colesterol alto, problemas de tireóide, por exemplo, essas seis dimensões não estão sendo avaliadas. É um resgate simples do eu. A própria sociedade cobra que a gente viva um mundo de faz de conta, fingir uma coisa que não se é. Hoje, por exemplo, os brotos de 20, 21 anos não sabem mais sorrir, dar uma gargalhada, porque têm que fazer aquele tipo do executivo sério e fechado para os outros. Então, quando você reflete sobre as seis dimensões, há um resgate da simplicidade da vida, de uma forma que se previne a saúde como um todo.

JC - Os primeiros registros da medicina holística vêm da Grécia antiga, com alguns dos mais importantes pensadores, como Aristóteles e Hipócrates. Por que só hoje essa medicina alternativa está ficando bem difundida? Ou, em outras palavras, como foi a trajetória histórica da medicina holística?

Happ - Eu não diria que essa história e visão holística de saúde seria uma forma de defender a medicina alternativa. Quando falo sobre visão holística da saúde, coloco, por exemplo, que você, quando vai para o trabalho, não deixa a vida pessoal em casa, trancada. Você é sua história. É para ter consciência do seu eu por inteiro. Me lembro de quando era jovem de uma frase muito comum do meu pai: “Problema de trabalho, no trabalho. De casa, em casa”. Isso não existe. É uma fusão. Você fica, por exemplo, dez, 12 horas da sua vida no trabalho, com seus colegas. Então, leva toda aquela energia, o aprendizado, a alegria, o prazer de estar ali para a sua casa, e vice-versa. Essa visão holística não é forma de tratamento, é prevenção. De repente você sai de casa achando que está doente, sem vontade de ir para o trabalho, e logo procura uma desculpa na saúde física, e pode ser a saúde profissional que está doente.

JC - Então a senhora não pertence à corrente da medicina holística?

Happ - Não. Por exemplo, eu trabalho muito com ginecologia endócrina. O que eu mais estudo é o climatério (período que antecede a menopausa feminina e a andropausa masculina). Eu faço uso tanqüilamente, quando indicado, de hormonioterapia de reposição. Mas existe a indicação, o momento certo, não de uma forma aleatória.

JC - Como a senhora vai amarrar suas reflexões na palestra dessa semana em Bauru?

Happ - É a reflexão do eu. Como “eu” estou. Nossa tendência é sempre culpar o outro por não estarmos bem, felizes, com sucesso, com prazer de ir para o trabalho ou voltar pra casa. É o resgate desses padrões, que podem parecer arcaicos e passados, mas que revivendo-os vemos que são gratuitos. Qualidade de vida não se compra, é gratuita.

JC - E a questão da mulher, como vai ser abordada?

Happ - Nós, mulheres, temos um papel importantíssimo. Por exemplo, há a tendência clara das famílias de criar os meninos de forma diferente das meninas. A menina tem direito a manifestar as emoções de tristeza, de medo e de dor. Ao menino não é dado esse direito. Depois, quando se torna namorado, esposo, cobra-se dele sensibilidade, delicadeza, e ele não sabe. Vou trabalhar o papel da mulher na criação desse homem.

JC - Há formação específica nas faculdades de medicina com base na visão holística?

Happ - Não, não existe. Infelizmente.

JC - Então podemos dizer que o universo científico ignora a visão holística?

Happ - Realmente há uma tendência nas escolas de medicina a ver o indivíduo como parte. Por exemplo, geralmente quando uma mulher vai a um pronto-socorro com uma dor de garganta e se receita um antibiótico, nem se pergunta se a paciente toma contraceptivo oral (pílula). Certos antibióticos diminuem a eficácia da pílula, e isso não é lembrado. O indivíduo é visto por partes. Saúde intelectual, física, espiritual, emocional, então... não estão nem aí. Por isso estamos vivendo o caos.

JC - Esse “desprezo” da ciência em relação à sua visão poderia ser atribuído à holística se basear um pouco em algo que pressupõe uma crença? Ou seja, acreditar que somos formados por corpo, alma e espírito, como prega? Será que não é essa a causa?

Happ - Veja uma coisa. Por exemplo, quando se estuda a parte hormonal, o eixo hipotálamo (glândula mestra do organismo, centro da alegria, tristeza, sede, fome), se vê que ele comanda completamente o nosso comportamento. Isso é obra de Deus. Somos criaturas de Deus, que deu ao homem inteligência para estudar, aprender e saber lidar com isso. Só que não é dado ao cidadão o direito de compreender, de saber. E é isso que eu gosto de trazer. Não importa o nível social, intelectual, o indivíduo aprende e apreende. Você não pode separar.

JC - Mudando de assunto, a senhora acha que o uso de medicamentos naturais são uma forma de regresso aos tempos em que os homens se curavam por meio de plantas, ervas? Ou, ao contrário, é um avanço?

Happ - Nem um nem outro. Cada ser humano é uma peça de artesanato, não somos iguais. Por exemplo, apenas 15% das mulheres não têm as queixas subjetivas do climatério, não reclamam nunca. Chá de folha de amora, para muitas mulheres, funciona maravilhosamente bem para os calores. Agora, tem que estudar cada caso como único. Se tem uma paciente que tem uma contra-indicação à reposição hormonal a base de estrógeno (o chamado hormônio feminino), e é uma paciente com calores intensos, você apela para o chazinho de folha de amora. Cabe o bom-senso. Só não se pode massificar uma regra. Nunca.

JC - Como a senhora acha que um paciente com câncer deve ser abordado, então, levando em conta a visão holística?

Happ - O câncer é uma forma de as células se rebelarem. Como se fizessem uma greve. Geralmente, por trás do câncer tem uma história. Por exemplo, você pode sempre avaliar que, por trás do câncer de mama, existe uma mulher com uma história de um amor mal definido, mal traçado. Mães que perdem filhos adolescentes em acidentes têm tendência a desenvolver câncer de tireóide. Eu oriento muito minhas pacientes para que tomem consciência do sentimento delas. Se quer chorar, chore. Não congele as emoções, isso leva ao desenvolvimento de um câncer. Claro que sem ignorar o fator genético. Mas quando há algo emocional muito forte que não é trabalhado, é o que deflagra a doença. Todo câncer tem um início, não acontece do nada. Por isso a importância da prevenção.

JC - Qual o rumo que a medicina atual está tomando? O lado da prevenção, mais natural, holístico que a senhora defende ou o tradicional? Ou tudo caminha junto?

Happ - Os brotos estão se formando muito com a idéia de parte, de especialização. Quando voltei dos Estados Unidos, lá estava voltando o costume de ter bebê em casa, como uma forma de resgatar essa medicina naturalista, do toque. E nós estamos vivendo uma época em que só se fala em máquinas, exames. A verdadeira medicina ainda é ouvir o paciente, colocar a mão nele, examiná-lo. O diagnóstico está 80% no ouvir.

JC - Você acha que esse é o futuro, então, da medicina?

Happ - Não há outro caminho. Vamos voltar aos tempos da clínica, do ouvir. Os exames podem falhar. Quem está datilografando o resultado dos exames pode falhar.

JC - Mas o médico também não pode errar um diagnóstico usando o toque, como a senhora exemplificou?

Happ - Se ele for um indivíduo estudioso, souber realmente medicina, é mais difícil. A clínica ainda é soberana.

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