Os anos, como no Brasil, eram de chumbo. As vítimas da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990), no Chile, não foram somente homens, barbudos marxistas ou não, que contrariavam a filosofia de extrema direita que acabara de ser impregnada à bala no Palácio de La Moneda. A ordem que partia das botas do general era caçar, em todos os cantões daquele país, as feministas, sindicalistas e mulheres comuns - até mesmo as donas de casa - que contrariavam os interesses do regime.
E milhares delas desapareceram nos porões clandestinos, os chamados aparelhos de repressão. As que sobreviveram, perderam a auto-estima, a dignidade de viver. O mesmo aconteceu com aquelas que acompanhavam, amiúde, os gritos de desespero de mães, pais, filhas e parentes dos qualificados como desaparecido político.
A era Pinochet acabou, mas as feridas ainda estão abertas. Na busca de uma cicatrização consciente, longe do jargão “vamos colocar uma pedra nessa história”, surgiu a ONG (organização não-governamental) Domo Dungu - expressão indígena que significa “voz da mulher”. A organização nasce em 1986 na clandestinidade. Sediada em Talca - município a 280 quilômetros ao sul de Santiago do Chile -, a instituição realiza um trabalho que visa a integração total da mulher no machista cotidiano chileno.
“Além do trabalho de educação cívica, que promove a conscientização política das mulheres baseada nos fatos do passado recente, oferecemos também um leque de opções que passam pela ecologia, saúde, alimentação e até mesmo teologia. Aplicamos o método de educação popular do brasileiro Paulo Freire”, conta Luz Maria Troncoso Quinteros, uma das diretoras da Domo Dungu. Ela esteve em Bauru para conhecer o trabalho da ONG Terra Viva.
Mas a organização, que anualmente atende a cerca de 300 mulheres, vai mais além naquilo que oferece a seus associados. “Estamos fomentando também o resgate da nossa cultura. As associadas já trabalham com artesanato, com a terra e até com músicas folclóricas”, relata Luz Maria.
Outra frente de atuação da Domo Dungu é a desmistificação de uma passagem bíblica, que na opinião da diretora da ONG inferioriza a mulher. “Fazemos essa releitura da Bíblia na tentativa de se retirar o peso que foi imposto à mulher, representada por Eva, que atendia ao homem-deus e foi castigada porque o assediou”, comenta.
Para Luz Maria, Deus criou o homem e a mulher para caminharem juntos em igualdade de condições. “Não compactuamos com essa história de que Deus teria tirado a costela do homem e daí fez-se a mulher.” Ela reforça o direito de igualdade assoprado do criador na concepção do homem enquanto raça.
A militante da Domo Dungu denuncia que no Chile as condições de trabalho da mulher também são precárias. “Trabalha-se de 12 a13 horas por dia.” Na sua opinião, a organização das mulheres em todo o mundo busca um novo modelo de relação com o homem, no qual visa a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
“A mulher não pretende dominar o mundo. Quer apenas compartilhar dos mesmos direitos do homem. Salários, condições de trabalho e oportunidades”, sustenta.