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O primeiro romance


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A autora é uma mulher: Murasaki Shikibu. Intitulado “Genji Monogatari”, é o primeiro romance escrito e publicado. Escrito por volta do ano 1008, é composto de mais de uma dezena de volumes. Quando se pensa que dois terços da população não-alfabetizada do mundo são constituídos por mulheres, é de se perguntar se sempre foi assim. Uma característica muito especial explica, em parte, o quadro de analfabetismo e baixo letramento no Brasil. Por proibição da coroa portuguesa, aqui não havia imprensa. Tanto é que a Inquisição quase não teve atuação: não havia livros a censurar. Somente após a vinda da família real para cá (que ocorreu em 1808) foi liberada a instalação da imprensa. Até então, os/as poucos/as letrados/as liam o que era impresso na Europa.

No Brasil temos uma história sui generis. Quase não havia escola. Tradicionalmente, as famílias das elites contratavam preceptores a domicílio para seus filhos e filhas. Alguns/as posteriormente completavam seus estudos em Lisboa, Coimbra ou Paris. As crianças pobres, porém, não tinham acesso aos estudos, a não ser nos conventos. Poucas eram as escolas públicas mas, ao não se admitir a co-educação, as meninas ficaram impedidas de adentrar as salas de aula. Para as meninas das camadas populares, o quadro se agravava. Mesmo quando passou a haver escolas, pelo duplo padrão moral vigente, obstáculos foram impostos a fim de impedir o ingresso aos estudos.

Ao indagar sobre a realidade japonesa na época em que o romance foi escrito, uma especialista sobre a obra de Murasaki Shikibu informou que, no Japão da época (ano 1008), havia muitas pessoas não-alfabetizadas: cerca de 30% da população. No Brasil, essa era a taxa até o ano 2000. Ainda nos últimos 5 anos, ao interrogar alunas de Cursos de Jovens e Adultos sobre os motivos da não-alfabetização, constatamos que a interdição ao ingresso à escola foi o motivo mais freqüente citado. Seus pais haviam dito que “menina-mulher não tem precisão de estudar”. Hoje, no Brasil, as mulheres são mais escolarizadas e são maioria no eleitorado desde o ano 2000. Podemos dizer que já fizemos um longo caminho, mas ainda há muito a caminhar. A despeito do maior grau de escolarização, os salários de mulheres são, em média, 38% menores que os dos homens. Nas instâncias decisórias, as mulheres são minoria. Temos a consciência de que avançamos, mas ainda vemos no horizonte uma grande luta a travar até que relações igualitárias sejam estabelecidas. (Iolanda Toshie Ide, docente da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp, câmpus de Marília)

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