Ela acorda todo dia bem cedo, prepara o filho para a escola, segue para o trabalho e passa horas mergulhada na burocracia de um escritório. Já no começo da noite, busca o filho no curso, prepara a janta, cuida da casa e dá atenção à família. Parece cansativo? Mas não é só.
No meio de uma rotina intensa, a auxiliar financeira Eliane Gomes de Barros, 34 anos, encontra tempo para se dedicar ao voluntariado e conferir um sentido a mais à sua vida, oferecendo periodicamente atividades recreativas a crianças carentes e idosos do asilo da Sociedade Beneficente Cristã.
Para ela, o trabalho, realizado por meio do grupo Voluntários em Ação, é gratificante e vale todo o esforço. “Às vezes, achamos que um problema na nossa vida é o fim e então percebemos pessoas em situações bem mais difíceis do que a nossa e que por tão pouco ficam tão felizes”, diz.
Eliane é apenas um exemplo das milhares de mulheres de Bauru que hoje estão envolvidas com atividades assistenciais e guardam “religiosamente” algumas horas do seu tempo para se dedicar ao “outro”.
O que leva essas mães, estudantes e profissionais a esse tipo de doação, em geral, é a busca por um sentido de cidadania e a possibilidade de “fazer a diferença” no contexto social.
“É corrido, mas eu sempre acreditei que, se quisermos melhorar as coisas, temos que fazer nossa parte. Além disso, é muito gratificante, o que já é uma recompensa”, afirma a advogada Elisângela Bucuvic, 29 anos.
Casada e trabalhando diariamente num escritório, a advogada de agenda “apertada” integra o conhecido grupo bauruense Irmã Scheilla, do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), e se dedica duas vezes por semana a projetos sociais. Um deles tem o objetivo de oferecer assistência material e emocional aos acompanhantes de pacientes do Hospital de Base e o outro, auxílio e atenção aos menores do berçário da Casa da Criança.
Notórias damas
Quando o assunto é solidariedade, Anna Aparecida Camillo, - a dona Anita - 82 anos, vice-presidente da Casa da Criança, é um exemplo de dedicação. Dona de um fôlego invejável, ela trabalha há mais de meio século como voluntária nos projetos sociais da entidade. “E assim eu quero continuar, enquanto eu puder andar e tiver saúde”, diz.
Esse também é o pensamento da sacoleira Maria Magdalena Braz de Oliveira, 63 anos, que realiza periodicamente campanhas, por iniciativa própria, para arrecadar agasalhos e alimentos para os moradores do Ferradura Mirim e Jardim Redentor.
A iniciativa lhe valeu notoriedade. No Natal, por exemplo, ela é a famosa e esperada “Mamãe Noel”, que distribui brinquedos para as crianças, numa prática que já se tornou tradição na comunidade.
“Eu sou mãe de dez filhos. Eu os criei com muito sacrifício e conheço na pele o que é passar por dificuldades. Por isso, eu resolvi ajudar as pessoas e vou continuar fazendo até quando Deus me oferecer saúde”, revela.
Mas não é somente por meio de doações materiais que o voluntariado cresce na cidade. Conhecimento também é um recurso de grande valor no mercado da solidariedade. E é por isso que a artista plástica de Bauru Ana Maria Zaniratto, 60 anos, vem, desde 2000, conferindo um sentido a mais à sua vida e à vida dos moradores do Jardim Godoy, oferecendo toda a sexta-feira à tarde aulas gratuitas de pintura a cerca de 40 pessoas. “Eu gosto de ensinar tudo o que eu sei e por meio desse trabalho eu tenho muita satisfação. Eu me sinto útil”, diz.
Ela acredita que a arte é um caminho para melhorar a vida das pessoas e transformar a sociedade. Ana também trabalha diariamente num atêlie e se diz disposta para continuar com a atividade de voluntária por muitos anos.
Crescimento
De acordo com dados da Secretaria do Bem-Estar Social, atualmente, Bauru conta com cerca de 70 entidades não- governamentais regularizadas que desenvolvem atividades de assistência social. Nelas, mais de 20 mil pessoas atuam como voluntárias, sendo a maior parte formada pela população feminina, de acordo com a Sebes
Numa dessas entidades, o Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), elas têm se destacado em várias frentes de trabalho.
Dos cerca de 800 voluntários da entidade, segundo a secretária do Ceac, Iracema Dias, 600 são mulheres. “As mulheres têm uma inclinação natural maior para o trabalho voluntário. Creio que elas sejam mais sensíveis a isso”, defende.
Iracema afirma que esse tipo engajamento social tem crescido de forma significativa nos últimos anos. Segundo ela, todas as semanas, novas pessoas procuram o Ceac para atuar em atividades dessa natureza, desde donas de casa a estudantes universitárias.
“Há um grande movimento na sociedade no sentido de reservar um horário pelo menos na semana para esse fim”, diz.Além de atender às necessidades mais imediatas, o objetivo do trabalho voluntário, afirma Iracema, é resgatar a auto-estima daqueles que se encontram em condições sociais menos favorecidas.
À frente de assistência social
Atualmente, duas mulheres estão à frente de cargos importantes dentro da área social em Bauru. Uma delas é Darlene Martin Tendolo, titular da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), e a outra é a presidente do Conselho Municipal de Assistência Social, Egli Muniz.
Darlene afirma que a cidade sempre se destacou pelo forte trabalho na área assistencial e apresenta inúmeras mulheres atuando em setores não-governamentais.
“Bauru é muito forte nesse trabalho, a sociedade civil se manifesta de maneira organizada, prestando um serviço de excelência”, diz. “E a tendência é que isso cresça”, completa.
Na avaliação de Egli, no contexto atual, só o governo não é capaz de resolver os problemas sociais. Por isso, cresce a cada dia a importância do trabalho voluntário. “Por mais que a gente entenda que o Estado tenha que assumir um papel de centralidade nas políticas sociais, se reconhece mundialmente hoje que o Estado não dá conta sozinho e a sociedade civil tem de entrar com seu trabalho de parceria”, defende.
Egli afirma que a mulher tem um papel histórico nessa área. “E hoje percebemos que a tendência das mulheres é desempenhar um voluntariado cidadão, não aquele voluntariado da década de 60 e 70, voltado mais para o assistencialismo”, diz.