Apesar dos progressos conseguidos, da modernidade que nos circunda, adentramos o século XXI nos deparando com cenas de barbárie que já deveriam ter sido eliminadas no mundo dito civilizado. O planeta está em guerra, não uma grande guerra como se temia no final da década de cinqüenta, mas pequenas guerras fratricidas espalhadas pelos quatro cantos que dizimam anualmente milhares de pessoas e põem em risco o equilíbrio da vida, mas que parecem não comover mais. Banalizamos a violência. Estamos cada vez mais intolerantes, individualistas e egoístas. Estamos nos tornando tribais num mundo globalizado.
Estive algumas vezes na Estação de Atocha, em Madri, de onde saem trens para toda a Europa, mas também para os “cortos recorridos” até Toledo e Aranjuez. É uma estação onde tudo funciona e as composições com ar condicionado saem ou chegam exatamente no horário. No seu interior existe um belíssimo jardim tropical com palmeiras e samambaias amazônicas. Tornaram-se exuberantes na área climatizada. Fico pensando no quadro de horror nesse ambiente destinado, justamente, à pacificação dos espíritos de milhares de pessoas no seu corre-corre em busca do pão de cada dia. Centenas de mortos, milhares de feridos e pessoas atônitas observando os corpos sem ter idéia das razões que levaram a tão brutal derramamento de sangue.
A mente humana busca uma explicação racional para todos os fatos, inclusive nos violentos, e tem extrema dificuldade de trabalhar com a brutalidade que não tenha um mínimo daquilo que a gente chama, em linguagem vulgar, de “lógica”. Parece até que as relações dos poetas com o pacifismo mudaram. Um poeta virou homem-bomba na Cisjordania. Antes de mandar pelos ares meia dúzia de judeus e a si próprio, deixou escrito nos seus guardados um poema que sequer invoca a Alá e, portanto, descarta motivos fundamentalistas: “Terei um encontro com a morte/ numa cidade em fogo, à meia-noite,/ ao ir-se a primavera para o Norte: serei fiel à palavra que empenhei:/ jamais a esta entrevista faltarei./ No coração da cidade impassível vingarei meus irmãos assassinados.”
É a história da luta entre o pequeno e o grande e de suas conseqüências. O jovem Davi, que seria rei e construiria o sonhado Templo, era apenas um pastor entre ódios arcaicos. Armado de uma baladeira, ela vai derrotar o gigante Golias. Agora a história se recompõem pelo avesso. Um Davi gigantesco e atômico persegue um Golias anão, que revida bombas com pedras, mártires e atentados. A guerra no Iraque continua. Na Palestina já vai para 60 anos e ninguém está a salvo, seja em Wall Street ou nos jardins tropicais de Atocha. É como se Brecht estivesse vivo e ouvindo os discursos de Bush e de Tony Blair sobre as mentiras a cerca da brevidade da guerra: “... o outono virá e passará / e tornará a vir e a passar muitas vezes/ e vocês não voltarão./ No Pólo Norte, na Índia ou no Transvaal,/ um dia encontrarão seus túmulos”. Ou talvez em Manhattan, em Atocha ou na Victoria’s Station.
Também aqui estamos em guerra. Meses atrás, no Rio, andei de ônibus, coisa que há muito não fazia. Todo mundo ensimesmado. Ninguém nem aí com a mulher grávida de pé. A senhora trôpega, a cada freada do motorista, que parecia se divertir. É a parcela do poderzinho que lhe coube. O homem velho deixou todo mundo inquieto, com uma frase, meio absurda nestes dias que correm. Ao descer, disse “Obrigado, e tenham todos um bom dia”. As pessoas o olharam como se ele tivesse dito um palavrão.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.