Política

Partido ainda é só um trampolim

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 3 min

Grande, pequeno, nanico e de aluguel. Os 27 partidos políticos brasileiros registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com raras exceções, servem de abrigo para atender a interesses de grupos. O fomento ao debate de idéias e a discussão na busca da transformação da sociedade através da política passam longe das legendas. Na maioria delas, a vida orgânica inexiste.

Os candidados iniciantes na vida pública ou aqueles que buscam a reeleição estão mais interessados em se abrigar em partidos que lhe ofereçam chances concretas de arrebatar um mandato. Questões ideológicas e de interesse público são relagadas a segundo plano.

Esse quadro não provoca surpresa e muito menos assusta o professor João Francisco Tidei de Lima, do curso de história da Universidade do Sagrado Coração (USC). “O Brasil não tem cultura democrática. Nossa história é permeada por um domínio oligárquico e autoritário”, analisa.

Ele conta que no século passado, o País teve raros momentos de liberal democracia. “Predominaram longas situações autoritárias e oligárquicas. Não há um quadro partidário que implique numa realidade democrática, arejada e perene. Os partidos políticos europeus e norte-americanos têm mais de 100 anos de história”, exemplifica.

Lima reforça seu raciocínio argumentando que a tradição partidária de um país está intimamente relacionada à democracia. “Não se pode ter partidos que representem coerência, perenidade e identidade se não houver um pano de fundo democrático.”

Na avaliação dele, o Brasil vive numa “anarquia” de partidos. “É uma farra partidária. As siglas brotam igual cogumelos. Não quero dizer com isso que o País deva se enquadrar num espectro de três ou quatro partidos. Mas é preciso ter maturidade democrática para gerar uma legislação partidária que seja coerente e representativa das necessidades públicas”, avalia Lima.

Passado turbulento

A análise do professor enquadra-se com perfeição na história político-partidária de Bauru. Segundo o historiador Gabriel Ruiz Pelegrina, os primeiros registros de movimentação partidária em Bauru demandam ao ano de 1894.

A família Araújo Leite, recém-chegada de Minas Gerais, funda o Partido Municipalista. Na oposição é instalada na cidade uma célula do Partido Republicano Paulista (PRP). Ambos representavam os interesses de fazendeiros radicados na região.

A primeira grave confusão entre militantes dos dois partidos ocorreu na eleição para a Presidência da República, disputada pelo general Hermes da Fonseca e pelo advogado baiano Rui Barbosa. A vitória dos hermistas provocou um tiroteio, que obrigou o prefeito da cidade, na época Álvaro de Sá - que apoiou Rui Barbosa - a abandonar o cargo e fugir para São Paulo.

Ausentes

Dos 27 partidos políticos registrados no TSE, 23 estão regularizados em Bauru. Não foi localizado qualquer indício de funcionamento do PMN, Prona, PCB e PCO na cidade. Mas, com raras exceções, pode-se afirmar que a grande maioria das legendas não têm vida orgânica. Além de não promoverem reuniões, estão ausentes de sede.

As movimentações partidárias começam a ficar mais constantes com a aproximação das eleições em todas as instâncias - desde prefeito até a presidente da República.

Terminada a temporada, dirigentes e “militância” se recolhem, apagam as luzes e esquecem de continuar injetando vida nos partidos políticos aos quais estão filiados.

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Fala povo

• Você tem vontade de se filiar a um partido político? Por quê?

Não. Até me interesso por política, mas nunca tive atração para trabalhar com ela. André Petraglia, professor e publicitário

Não. Eu não tenho pretensão política. Na verdade, não gosto deste meio. Maria Elídia Souza Carvalho, comerciante

Não. Não há decência na política. Prefiro ficar de fora para avaliar melhor. Gislaine Cristina Pavari, babá

Não. Acho a política importante, mas não me sinto preparado para participar. Marcelo Dias Neves, funcionário público

Não. Acho a política de hoje indecente. É impossível confiar em algum político. Moisés Custódio, auxiliar-geral

Não. Não dá para acreditar no político, na política e no partido político. Está difícil. Cássia Cerigato Usó, psicóloga

Não. Partido político não funciona. Quem sabe no futuro, mas neste momento não. Priscila Segalla, turismóloga

Não. Não vale a pena. Não quero me misturar a essa gente. Me sentiria mal. José Benedito, autônomo

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