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Trens cheios de vida


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Os trens de subúrbio que chegam a Atocha pelo leste de Madri constituem um dos principais meios pelos quais diariamente se incorporam à cidade milhares de estudantes e trabalhadores. À primeira hora da manhã, os comboios pintados de vermelho e branco repartem seus assentos de plástico rígido, em um ou dois andares, entre uma humanidade sonolenta e esforçada que nutre esta cidade e lhe dá vida. O jovem que repassa seu trabalho escolar, o trabalhador que lê o primeiro jornal do dia, aquele que ainda dá uma última cabeçada de sono, a moça que aproveita o trajeto para devorar o último livro que caiu em suas mãos...

Nessas horas não há muita algazarra nos vagões, esses divididos em duas filas de bancos (de dois e três lugares), e a voz automática que vai cantando as estações (Torrejón de Ardoz, San Fernando de Henares, Coslada...) só interrompe, quando muito, a música ambiente. Só preside esse ambiente de afinco e sacrifício o murmúrio de uma humanidade calada e generosa, uma humanidade em marcha que, para quem sabe ouvir, é Madri, a alma de Madri, ou melhor ainda, a valiosíssima e mundana contribuição que faz o milagre de dar corpo a Madri.

Esta Madri nossa tão próspera e brilhante, que na realidade, principia pelo mais humilde, quando a voz gravada do trem vai despertando os passageiros anunciando que já chegaram a Santa Eugenia, Vallecas, El Pozo, Assemblea de Madri-Entrevias, e assim até chegar em Atocha, que é a seguinte. No dia 11 de março, vários desses destinos se confundiram com o próprio inferno. E em minha cabeça agitam-se cenas terríveis, que jamais imaginei que presenciaria.

Apesar de sua insistência, e embora seja impossível esquecer a angústia de certas vozes, de tantos rostos, me esforço para que não desalojem de meu coração essa outra imagem anterior do jovem estudante, do trabalhador cansado, do homem que dorme, da garota do livro... Porque me nego a aceitar que o desígnio de morte que quiseram nos impor contamine, nem por um segundo, a pureza de seu esforço, de sua generosidade, de seu desprendimento e de seu cansaço de todos os dias.

Me vêm à mente outros argumentos, distintas idéias. Por exemplo, a de Madri como histórico bastião de liberdades, que hoje defende as de todos os espanhóis com a mesma determinação de não ceder ao opressor que sempre lhe deu ímpeto. E, naturalmente, a denúncia não só dos autores materiais deste assassinato coletivo, que já desponta como um crime contra a humanidade, como também de seus cúmplices intelectuais, que com seu silêncio e indiferença contribuem igualmente para torná-lo possível. Preciso, também, expressar minha profunda gratidão aos homens e mulheres que vi salvando vidas, às administrações que voltaram todo seu profissionalismo para Madri, e aos representantes institucionais de todo o mundo que ofereceram sua solidariedade, sabendo, talvez, que aqui as portas estão sempre abertas, para o bem e para o mal.

Contudo, acima de tudo isso, tenho a íntima convicção de que a melhor maneira de não sucumbir inteiramente ao ataque feroz, que nos infligiram como membros de uma sociedade livre, consiste em não perder nunca de vista a imagem dessas pessoas que, na quinta-feira, como qualquer dia, vinham a Madri para nos dar o melhor delas, não para serem lembradas como presas da morte, mas como o que eram: passageiros de alguns trens cheios de vida.

O autor, Alberto Ruiz-Gallardón, é prefeito de Madri.

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