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Obra em canil atrapalha ação da Saúde

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

Com parte de sua estrutura já concluída, as futuras instalações do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) - órgão ligado ao Departamento de Saúde Coletiva do município - já poderiam receber e abrigar cães recolhidos na cidade. Mesmo com 14 casos humanos confirmados e uma vítima fatal de leishmaniose, os cachorros infectados, que são o principal hospedeiro da doença, ainda são mantidos com seus donos ou, no caso dos animais errantes, deixados nas ruas, o que dificulta sua localização e apreensão.

A conclusão das novas instalações estava prevista inicialmente para o final do ano passado. O atraso no término das obras no CCZ deve-se a divergências entre a Prefeitura Municipal e a União Internacional Protetora dos Animais (Uipa). A organização não-governamental (ONG) já foi notificada a deixar o canil que ocupa, dentro do terreno do órgão, mas ainda mantém cerca de 120 cães e 300 gatos abrigados no local.

Segundo o secretário municipal de Saúde, Hanna Saab, a empreiteira responsável pela obra espera a desocupação do canil para promover sua reforma e ainda a construção de uma fossa séptica para o depósito de dejetos animais. A obra no CCZ é realizada com recursos da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e da prefeitura, que já repassaram R$ 200.737,76 e R$ 71.727, 69, respectivamente. Cabe à Funasa ainda um último repasse de R$ 86.073,01.

“A obra está parada porque eles (Uipa) não desocuparam o prédio. Não estamos recolhendo animais doentes porque não temos onde colocá-los, mas quando a empreiteira reformar o canil, os cães errantes e doentes ficarão confinados ali”, explica Saab.

A presidente da Uipa em Bauru, Angela Maria Heiffig da Silva, confirma que a área onde a ONG está instalada pertence ao município, mas observa que todos os animais que estão atualmente no local ficariam desabrigados. “O prefeito pode tomar o prédio na hora em que ele quiser, mas a entidade não tem onde pôr os animais. Eles deixariam 450 animais desabrigados, e no futuro, vão recolhê-los com suspeita de leishmaniose”, alerta.

Na opinião de Angela, uma alternativa seria abrigar temporariamente os animais no canil já finalizado, que conta com seis celas coletivas e dez individuais e teria capacidade para receber até 70 cães. Além dos animais da ONG, ela aponta a possibilidade dos cães errantes e contaminados com a leishmaniose serem recolhidos para o local.

“Este canil tem a finalidade de receber animais desabrigados e recolhidos, mas não compete à Uipa resolver. O local só precisaria ser adequado, com telas fininhas instaladas para isolar os animais com suspeita da leishmaniose. Mas isto já é complicado porque o local não é o ideal para um centro de isolamento, fica dentro de um bairro residencial”, critica a presidente da ONG.

Sacrifício

A leishmaniose é transmitida a cães e humanos através da picada do mosquito palha infectado, que se prolifera em locais com material em decomposição, como lixo. A doença tem tratamento em humanos mas pode levar à morte porque debilita o sistema imunológico do paciente. Em cães, não há cura e os animais doentes devem ser sacrificados.

O secretário de Saúde afirma que o CCZ não vem realizando o recolhimento de animais infectados ou errantes justamente por não haver um local apropriado para abrigá-los. No entanto, a reportagem do JC visitou as novas instalações do órgão e constatou que o canil já está pronto e estaria apto a receber os animais.

Em média, apenas seis cães soropositivos de leishmaniose são sacrificados por dia. O processo é realizado na cozinha da sede do CCZ e segundo Saab, o material orgânico é depositado em uma fossa precária. “Estamos depositando em uma fossa que está dentro dos padrões da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Com as novas instalações, teremos também uma nova fossa séptica para onde irão os dejetos dos animais, para que não tenhamos contaminação do solo, de um rio ou lençol freático”, indica.

O CCZ também não conta com um veículo próprio para recolher os cães e espera a compra de uma viatura específica, em processo que aguarda a liberação da verba pela Secretaria de Finanças. Questionado sobre a possibilidade das novas instalações do CCZ receberem os cães recolhidos nas ruas e com suspeita de leishmaniose na tentativa de contenção da epidemia da doença, o secretário de Saúde responde que é necessário aguardar a conclusão da obra.

“A empreiteira precisa entregar a obra inteira, tem que terminar tudo para receber o pagamento e dar o termo de conclusão. Não podemos ocupar o canil antes da reforma estar concluída”, argumenta.

Para a presidente da Uipa, a doença já está sem controle em Bauru. “A população não recebeu qualquer tipo de orientação e isto é inoperância da secretaria. Agora, eles têm o local para abrigar os cães e sacrificar muito mais animais infectados do que tem sido feito, mas não fazem nada. Assim, a secretaria coloca em risco toda a população”, conclui Angela.

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