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O muro e outras vergonhas


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Como bem sabem os observadores internacionais, o conflito israelense-palestino é a chave para a paz no Oriente Médio. Nenhum dirigente político ocidental, no entanto, está fazendo algo para evitar seu agravamento, menos ainda para resolvê-lo.

George W. Bush fez algumas declarações em favor da paz. Chegou a desautorizar certas iniciativas agressivas de Ariel Sharon e, em duas oportunidades, reconheceu a existência do governo palestino. Eram declarações de intenção, sem conseqüências práticas. Sharon compreendeu que Bush, envolvido na guerra preventiva contra o Iraque e, sobretudo, preocupado com sua reeleição, o deixaria de mãos livres para fazer o que quisesse. Também a imobilidade da União Européia - apesar de numerosas declarações retóricas - deixou o caminho livre para Sharon. Assim, chegou-se, com culpas divididas e de escalada em escalada, ao extremo de se criar uma verdadeira situação de apartheid, um muro da vergonha, que divide irremediavelmente dois povos, impede a livre circulação das pessoas em sua própria terra e assegura a dominação colonial de Israel sobre a Palestina.

Quando o bom senso de alguns dirigentes políticos, brancos e negros, pôs fim ao odioso regime do apartheid na África do Sul, e quando em 1989 o Muro de Berlim caía estrepitosamente anunciando uma nova aurora de liberdade, ninguém pensava que 15 anos depois estaríamos confrontados com outro muro e com um novo regime de apartheid. Os judeus, tão perseguidos no passado, com o governo de Sharon estão se transformando em um Estado que persegue. Com o pretexto da luta sem quartel contra o terrorismo, a administração norte-americana se lançou por um caminho de violência e represálias cujas conseqüências nefastas estão à vista no Iraque e no Oriente Médio.

No Irã, no que se pode considerar um golpe de Estado, o partido conservador do “guia supremo” Kamenei, praticamente anulou a tendência reformista que procurava sobreviver junto ao presidente Katami. A situação é de uma enorme gravidade devido à dimensão do país, seu peso demográfico e geoestratégico, e sua colocação entre os maiores produtores mundiais de petróleo. Por conseguinte, o secretário de defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, que continua dizendo em voz alta o que outros pensam mas calam, em sua recente visita ao Iraque voltou a ameaçar a Síria e o Irã.

Entretanto, o terrorismo, segundo as freqüentes novidades que surgem da CIA e da boca de seu inefável chefe, George Tenet, caminha de vento em popa, e, ao que parece, esta ameaça poderia sobreviver à própria Al-Quaeda.

O autor, Mario Soares, foi presidente de Portugal no período entre 1986 e 1996.

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