Diversas turmas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) do câmpus de Bauru aderiram à paralisação das aulas realizada durante todo o dia de ontem, em protesto contra a falta de professores efetivos e estrutura de ensino na instituição. Grupos de estudantes participantes da coordenação do movimento visitaram as salas de aula e convidaram os alunos a interromper as atividades e participar do protesto. Hoje, as aulas seriam normalizadas.
Em alguns blocos, os estudantes retiraram as carteiras de dentro das salas, em um protesto pacífico, e permaneceram nos gramados do câmpus, distribuindo panfletos que convidavam os universitários para a paralisação com os dizeres “Não espere seu curso fechar!”.
À noite, os universitários ainda realizaram uma assembléia que definiu uma pauta de reivindicação unificada entre todos os cursos do câmpus de Bauru.
Nela, os estudantes insistem na contratação de funcionários e de professores em regime de dedicação integral de docência e pesquisa. Também cobram a construção de laboratórios e de piscina para o curso de educação física, além de adaptações para viabilizar o acesso a deficientes.
De acordo com o aluno de jornalismo Reynaldo Turollo Júnior, integrante da comissão de imprensa do movimento, a intenção dos estudantes é realizar um ato unificado, com participação de todos os câmpus da instituição.
Primeiramente, a pauta de reinvindicação será encaminhada aos diretores locais. Depois, o movimento será unificado ao já realizado por outros câmpus da Unesp. “Todos os câmpus estão mobilizados e o ideal é que a gente consiga unificar essa luta, fazendo um ato com todo mundo. Vamos manter o indicativo que tiramos na reitoria de São Paulo e pensamos em discutir novas possibilidades de paralisação”, diz. Segundo ele, a próxima assembléia unificada de Bauru foi agendada para quarta-feira.
A movimentação dos estudantes começou há cerca de duas semanas, quando alunos do curso de pedagogia cobraram publicamente a contratação de professores efetivos e em regime de dedicação integral de docência e pesquisa à universidade. De acordo com um levantamento da própria Unesp, o problema atinge outros cursos: 21,6% dos 361 professores ativos da Faculdade de Ciências (FC), Faculdade de Engenharia de Bauru (FEB) e Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) pediram sua aposentadoria ou a conquistaram nos últimos meses.
Em entrevista ao JC na semana passada, o reitor da Unesp, José Carlos Souza Trindade, afirmou que as aposentadorias foram motivadas pela reforma da Previdência e que a instituição já programava a realização de concursos públicos para a contratação de novos professores ainda no primeiro semestre.
Segundo o reitor, enquanto os trâmites dos concursos não são finalizados, a única possibilidade para atender emergencialmente a demanda de docentes seria a contratação de professores conferencistas.
No entanto, os estudantes argumentam que a contratação de professores conferencistas, que podem ter vínculo com a universidade apenas por 89 dias corridos, prejudica a qualidade de ensino. “O problema é que o reitor proibiu as contratações até o final da sua gestão. Os professores conferencistas não têm vínculo com a universidade, não produzem pesquisa nem extensão, não podem dar orientação a projetos e nem ficam no departamento atendendo os alunos depois das aulas”, observa Turollo Júnior.
Ele completa que o período em que os conferencistas permanecem com uma turma não seria suficiente para a conclusão dos conteúdos das disciplinas. “Os 89 dias em que eles podem ficar não cumprem nem um semestre. Ou as disciplinas são dadas em meio semestre e ninguém dá aula no restante dos dias, ou entra um novo conferencista que não consegue dar continuidade. Não tem projeto pedagógico que dê conta deste problema”, critica o estudante de jornalismo.
A aluna do curso de química, Milena Castanho Rodriguez, ressalta que diversas cursos também apresentam falta de laboratórios próprios para os cursos. “Sabemos que seria liberada uma verba para a construção de laboratórios em outubro do ano passado, mas até agora não vemos nada de construção pelo câmpus. Esta mobilização é para mostrar nossa insatisfação com a falta de professores e a falta de estrutura para os cursos”, aponta.
O presidente do Grupo Administrativo do Câmpus (GAC), José Carlos Plácido da Silva, informa que os diretores das faculdades da Unesp devem participar de uma reunião com o reitor amanhã em Botucatu e, entre os assuntos pautados, está a demanda de professores e a mobilização dos alunos.
Segundo Plácido, a paralisação das atividades durante o dia de ontem foi tranqüila e correu sem problemas. Ele comenta que houve a participação de alunos de cursos que não estão passando por problemas de falta de professores.
“Sabemos que este problema está afetando principalmente a FC, mas na Faac e na FEB, foram poucas aposentadorias. Temos professores conferencistas que estão substituindo docentes em licença-prêmio, mas que devem voltar após os 89 dias. E os concursos para contratação estão em andamento”, conclui.