O filme “Abril Despedaçado” (2001), do cineasta brasileiro Walter Salles, mostra, do ponto de vista de um menino do interior da Bahia no início do século 20, o auge de uma atividade cultural que encantava as crianças muito antes do cinema e a TV, o circo. A passagem de dois mambembes pelo povoado local leva um garoto a vislumbrar a possibilidade de escapar ao duro cotidiano sertanejo.
Hoje, vai longe o tempo em que se sonhava fugir da casa dos pais para viver aventuras com os artistas circenses. Há anos, o público vem abandonando as arquibancadas de madeira sob lonas coloridas. Esta semana, o ministério aproveita o Dia do Circo e Teatro, comemorado ontem, para lançar o projeto “Circo Vivo - Conhecendo e Identificando a Cultura Popular Brasileira”.
O programa foi anunciado oficialmente ontem, em Brasília, cidade que acolheu ao na última semana um festival de palhaços, com shows de grupos de diversas partes do País. O clima de circo transformou a Esplanada dos Ministérios em um palco para apresentações de malabares, palhaços, mágicos e um cortejo circense com artistas locais.
Na avaliação do Ministério da Cultura, o certo desinteresse pelo circo acontece por falta de uma “política pública que lhe permita concorrer com várias opções culturais presentes nos grandes centros”. Se não há público, não há bilheteria.
É um ciclo: a escassez dos recursos leva à perda das condições para a manutenção das atividades, o que dificulta a criação de espetáculos com qualidade e gera desemprego de artistas. Assim, num processo contínuo, o circo vem desaparecendo das cidades.
O ministério quer agora recuperar essa tradição que remete a espetáculos da Grécia e do Egito antigos. O objetivo não é dar ajuda a companhias de circo que estão sem dinheiro, mas sim garantir uma nova geração de apreciadores desses espetáculos, com atividades de formação de público.
O projeto “Circo Vivo” vai, bem ao modo dessa tradição, excursionar por todas as regiões brasileiras (Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste). O projeto começará pelo circuito Belém-Brasília.
“Vamos nos valer da estratégia itinerante do circo para promover a interiorização de várias manifestações artísticas. Será um ótimo instrumento para promover o do-in antropológico”, diz o secretário de Apoio à Preservação da Identidade Cultural, Sérgio Mamberti, numa referência à expressão usada por Gilberto Gil desde o seu discurso de posse no Ministério da Cultura. “Este contato com a diversidade traz a oxigenação, incentiva a cidadania e reforça as expressões regionais”, completa Mamberti.
“Será uma caravana, um grande circo que comporta além dos espetáculos, várias atividades como música, teatro”, acrescenta o assistente de gabinete da Secretaria de Apoio à Preservação da Identidade Cultural do Ministério da Cultura, Geraldo Vitor.
Serão seis etapas. A primeira começará em maio e irá passar por cinco cidades, uma em cada região do País. O roteiro ainda não foi definido, mas deverá contemplar municípios mais pobres. O circo ficará um mês em cada lugar, tendo a turnê cinco meses de duração. Essa fase será um piloto. As outras irão passar, cada uma, por uma das regiões brasileiras, ficando também um mês em cada uma das cinco cidades.
A lona deve abrigar, além de espetáculos de circo, artes cênicas, visuais, literatura e música. Teatro, dança, filmes, bibliotecas temáticas e folclore irão entrar no picadeiro. “Pretendemos criar uma política duradoura, que trate não apenas da difusão de espetáculos, mas da diversidade do espaço do circo. Queremos mostrar que o circo pode envolver outras atividades. Como, na maior parte do tempo, ele fica ocioso, poderia abrigar oficinas e filmes”, afirma Geraldo Vitor.
O “Circo Vivo” irá levar às cidades por onde passar oficinas de iniciação de circo e cenotécnica para o público, cursos técnicos de Administração e “Marketing Circense” - destinado a empresários, produtores e administradores de circo, e de “Formação Técnica Circense”, para artistas.
Outras atividades paralelas também fazem parte da investida, como oficinas sobre organização de cooperativas em artesanato. Além disso, o “Baú das Artes” deverá colocar à disposição do público obras da literatura brasileira, a “Roda Literária” irá promover encontros com poetas, escritores e contadores de estórias. E o “Cine-Vídeo” irá exibir filmes e documentários nacionais. Todas as atividades serão gratuitas para o público.
Para cada módulo, serão contratadas diferentes companhias e artistas, por meio de editais de concursos públicos. Serão cinco grupos de teatro, cinco de dança, cinco conjuntos musicais e uma companhia de circo, que realizará espetáculos durante o dia para as crianças de escolas públicas e à noite para o público em geral.
Berço cultural
A escolha pelo circo não foi à toa. Mamberti lembra que o circo é por muitos considerado o berço do teatro nacional. “Os primeiros espetáculos, promovidos por trupes de ciganos, tinham uma íntima relação como o teatro profano, da Idade Média. Apresentações eram marcadas por uma boa dose de sensualidade e finalizadas com grandes comemorações”, relembra.
Ao longo do tempo, espetáculos promovidos pelos grupos, principalmente portugueses e espanhóis, se popularizaram e se transformaram no primeira manifestação artística presenciada por grande número de crianças.
A popularidade do circo decaiu muito, mas Mamberti refuta a idéia de que ele esteja morrendo. O Ministério da Cultura tem hoje cadastradas 400 companhias. Mas estima-se que no País outras 400 estejam atuando informalmente. O secretário afirma que o ministério vai propor algumas medidas para tentar reativar este setor. Entre elas, a redução ou isenção para os grupos para o pagamento de impostos, taxas de ocupação e pedágios.
O ideal, afirmou Mamberti, seria também realizar cursos para melhorar a administração de tais companhias, ainda hoje caracterizada por girar em torno de grupos familiares.
O trabalho do ministério deverá começar em maio e percorrer 25 cidades. Por enquanto, o projeto conseguiu reunir R$ 2 milhões, a partir de um financiamento da Caixa Econômica Federal e do Pnud. Mas Mamberti pretende encontrar novas fontes de recurso, para garantir a consolidação do trabalho, ao longo de três anos.
O secretário sabe, também, que é preciso encontrar mecanismos de garantir que a lona deixada pela trupe não fique abandonada. Para que isso não ocorra, a idéia é incentivar o investimento dos governos estaduais e municipais nestas atividades. “Queremos que as lonas sejam para o grupo cultural como a oca é para os índios. Ficamos por lá um período, partimos para outras regiões e, passado um período, retornamos”, diz.