Embora as Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDM) estejam técnica e economicamente ao nosso alcance, o que está faltando é vontade política para situá-las no centro das políticas locais, nacionais e internacionais. Em 2000, na Cúpula do Milênio das Nações Unidas, 189 chefes de Estado e de governo acertaram unanimemente uma série de metas concretas, tais como reduzir à metade até 2015 a proporção de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia e daqueles que sofrem fome. Mas, se for mantido o passo atual, somente no ano de 2147 se poderia alcançar a meta número um, de reduzir a pobreza extrema e a fome na África subsaariana.
O comércio internacional tem um enorme potencial para reduzir a pobreza e levar ao crescimento econômico. Estimativas do Banco Mundial revelam que a eliminação das barreiras comerciais e dos subsídios agrícolas nos países ricos podem melhorar o bem-estar global em cerca de US$ 120 bilhões. As políticas que mais distorcem o comércio são as do setor agrícola. Os países ricos proporcionam subsídios aos seus próprios produtores agrícolas no valor de US$ 300 bilhões ao ano, muito mais que os US$ 57 bilhões que dão em ajuda oficial para o desenvolvimento. Esses subsídios levam a uma superprodução mundial, que deprime os preços agrícolas, inunda os mercados dos países pobres e comprime a renda dos camponeses das comunidades em desenvolvimento.
A reforma das políticas agrícolas poderia reduzir profundamente os níveis globais de apoio, liberando centenas de milhares de milhões de dólares e reduziria efetivamente a carga doméstica sobre os consumidores e contribuintes. Ao mesmo tempo, ajudaria a eliminar os prejudiciais subsídios à exportação.
Os países em desenvolvimento continuam enfrentando restrições no acesso aos mercados. Apesar de uma significativa liberalização nas últimas décadas, as barreiras comerciais ainda são altas, especialmente para bens que utilizam muita mão-de-obra e serviços nos quais os países em desenvolvimento têm uma vantagem comparativa. As exportações das nações pobres têm as portas fechadas por meio de altas tarifas alfandegárias (concentradas nos produtos agrícolas, têxteis e de vestuário) e por escaladas de aumentos alfandegários. As barreiras contra os produtos dos países em desenvolvimento são duas vezes maiores do que as aplicadas aos das nações desenvolvidas.
A Rodada sobre Desenvolvimento de Doha prometeu ser a primeira negociação mundial sobre comércio na qual os países em desenvolvimento não seriam somente os perdedores de um festim. Entretanto, a reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) do ano passado, no balneário mexicano de Cancún, se transformou em outra frustração. Os países desenvolvidos têm de dar passos concretos para colocar a agenda de Doha novamente no caminho e reformar suas políticas comerciais, a fim de assegurar que as nações em desenvolvimento obtenham benefícios do sistema comercial internacional. (A autora, Eveline Herfkens, é a coordenadora-executiva da Campanha para as Metas de Desenvolvimento do Milênio)