Geral

Faltam pais para crianças mais velhas

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 5 min

Das 107 pessoas que estão na lista de espera pela adoção em Bauru, 75 querem crianças de até 2 anos. Isso está dificultando a adoção de órfãos com mais idade e com determinadas características físicas, que aguardam ansiosos durante anos pela chegada de pais adotivos e um lar. As informações são do setor técnico do Fórum de Bauru.

A situação é preocupante. Tanto que, há cerca de duas semanas, o juiz da 1.ª Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, Siro Darlan, proibiu o cadastro de casais interessados em adotar meninas recém-nascidas naquele Estado. Ele tomou a decisão depois de constatar que 83% dos 229 habilitados para adoção queriam bebês com até 1 ano.

Em Bauru, os números mostram que a situação não é muito diferente do que se observa na Capital fluminense. Dados levantados pelo Fórum destacam que a preferência na cidade recai sobre bebês (até 2 anos), brancos e do sexo feminino.

O juiz da Vara da Infância e Juventude de Bauru, Ubirajara Maintinguer, explica que o perfil é traçado pelos pretendentes à adoção através do preenchimento de um cadastro no Fórum. “Temos que respeitar o que é definido nesse documento para que haja uma melhor adaptação dos pais adotivos com a criança”, explica.

De acordo com ele, o questionário, que inclui perguntas como tipo de cabelo e cor de pele, é uma determinação do Judiciário do Estado de São Paulo.

A psicóloga judiciária Rosângela Frediani Motta Vaz, do setor técnico do Fórum, explica que o objetivo do cadastro é facilitar o processo de adoção. “Não queremos que as crianças fiquem muito tempo na espera por um lar”, diz.

No entanto, essa intenção nem sempre transparece na prática. Da entrada da criança abandonada em uma instituição assistencial que serve como abrigo até a sua adoção pode-se levar até três anos. “O trâmite é demorado porque o primeiro objetivo é inserir a criança dentro de sua família natural”, explica a assistente social da Casa da Criança do Paiva, Anamaria Pinto de Lima.

Segundo ela, nem todas os menores que chegam até a casa-abrigo estão em condições de ser adotados. Primeiro, é preciso destituir o pátrio poder e, para isso, leva-se tempo, pois é necessário provar que os pais não têm mais condições de ficar com a criança. Depois, tenta-se encontrar alguém na família que possa ficar com a guarda do órfão. Se não obtiver sucesso nessa empreitada, a Justiça o encaminha para a adoção.

Com a demora, até mesmo os recém-nascidos acabam comemorando aniversário nas instituições. Mas bebês ainda estão no topo da preferência dos futuros pais adotivos.

Para se ter uma idéia, atualmente apenas uma pessoa está inscrita no Fórum à espera de uma criança acima de 4 anos, enquanto 75 querem de até 2 anos; 29, de 2 a 3 anos, e duas preferem crianças entre 3 e 4 anos.

Os menores que estão para adoção ficam sob a guarda de quatro entidades assistenciais de Bauru: Casa da Criança do Paiva, Casa de Nazaré, Sociedade de Apoio a Pessoas com Aids de Bauru (Sapab) e Centro de Valorização da Criança (Cevac).

Hora mágica

A psicóloga e presidente do Grupo de Apoio à Adoção Amigos da Vitória, Maria José Barbosa, destaca que muitas pessoas que estão dispostas a se tornar pais adotivos têm na cabeça um mito de que as crianças com mais de 3 anos já estão com sua personalidade formada e, portanto, terão problemas em se adaptar à nova vida. “Quando a criança adotiva chega a um lar, é como se ela tivesse acabado de nascer”, ressalta.

Ela afirma que não há diferença entre a educação de um bebê e de uma criança adotada tardiamente. “Vai depender do meio em que ela está inserida.”

A psicóloga, que tornou-se presidente do Amigos da Vitória depois de ter trabalhado durante anos no atendimento a filhos adotivos, explica que muitos casais que prentendem adotar um filho, depois de passar por um processo de “gestação” junto ao grupo, decidem-se pela adoção tardia. “Já tivemos casos de pessoas que resolveram mudar a sua preferência depois de conhecer as crianças que estão para adoção”, ressalta.

Com base nessas experiências, ela montou um projeto para incentivar esse tipo de relação. A idéia é preparar os casais para adoção por meio de um curso. “Após se cadastrar no Fórum, os pretendentes passariam por um curso de cinco módulos, no qual iriam se inserir no contexto da adoção. Depois disso, fariam uma visita às casas-abrigo para conhecer as crianças”, explica.

A idéia dela é que ocorra a chamada “hora mágica”, que é quando acontece uma afinidade entre os futuros pais adotivos e os órfãos. “É o momento em que eles se olham, se conhecem e se apaixonam”, salienta.

O projeto foi encaminhado ao juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer, que não deverá recusá-lo. Ele mesmo é um defensor desse processo de conhecimento para incentivar a adoção tardia. “Nós costumamos liberar os interessados em adotar uma criança para que façam visitas aos abrigos”, diz.

Só não é permitido visitar o berçário. “Não posso deixar que eles vejam os bebês porque, senão, vira bagunça”, destaca o juiz.

Segundo ele, ao se encontrar com os pequeninos, os pretendentes ficam mais ansiosos ainda pela adoção. “É preciso respeitar a fila de espera. Ao se deparar com o bebê, alguns pretendentes se exaltam e querem logo a liberação, mas não se pode passar por cima dos trâmites legais”, afirma.

• Serviço

Informações sobre o Grupo de Apoio à Adoção Amigos da Vitória pelos telefones (14) 3223-0225 ou 3227-8547.

____________________

Qual o tipo de cabelo?

Ao preencher o cadastro para adoção, os interessados respondem um formulário semelhante a esse:

• Quantos vão adotar?

• Idade mínima do adotado (em meses)

• Idade máxima do adotado (em meses)

• Aceitam irmãos? Quantos? Somente gêmeos?

• Sexo: feminino, masculino, indiferente

• Cabelo: liso, crespo, ondulado, carapinha, indiferente

• Cor: branca, negra, parda, amarela, índio, indiferente, outros

Comentários

Comentários