Os casos cada vez mais comuns de homicídios provocados por motivos banais estão diretamente relacionados ao consumo de álcool e drogas. A análise é do delegado Seccional de Bauru, Antônio Ângelo Ciocca. “A pessoa alcoolizada ou drogada não pensa muito nas conseqüências de um crime bárbaro contra a vida”, opina.
Em 2004, houve um crescimento de 50% no número de vítimas de homicídios em Bauru no comparativo com o mesmo período do ano passado. Foram 18 pessoas assassinadas até o momento, seis a mais do que em 2003. O último caso foi registrado anteontem à noite.
Ciocca lembra que o homicídio é um crime de difícil prevenção, mas afirma que a apreensão de armas ilegais e drogas é o melhor caminho para impedir que novos casos ocorram.
Embora atribua a violência ao álcool e à droga, o delegado lembra que os índices de criminalidade também dependem de outros fatores. “Até a temperatura tem influência. Temos levantamentos estatísticos que indicam que, quando chove, o plantão noturno registra menos crimes violentos ou contra o patrimônio. Por outro lado, aumentam os acidentes de trânsito. O frio também inibe a presença de pessoas nos bares”, comenta.
A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Jornal da Cidade.
Jornal da Cidade -Grande parte dos homicídios registrados este ano em Bauru ocorreu após desentendimentos provocados por motivos fúteis. Como o senhor analisa essa banalização da violência?
Antônio Ângelo Ciocca - Há trabalhos científicos que apontam o relacionamento entre violência e bebida e entre violência e drogas. Na última semana, tivemos um crime por motivo fútil em uma festa realizada em uma pensão. O que era para ser uma confraternização terminou com uma morte brutal causada por uma faca. O álcool, ao final, levou a uma morte dessas. Outro exemplo recente foi um duplo homicídio que fugiu do que acontece normalmente. Em uma chácara, uma pessoa matou dois irmãos que estavam lá bebendo. Também este ano, tivemos um triplo homicídio em que o uso de drogas estava escondido por trás do fato. É possível notar, então, que álcool e drogas são fatores que contribuem para a prática de crimes, principalmente daqueles contra a vida, que são irreparáveis.
JC - O que a polícia pode fazer para evitar esse tipo de ocorrência?
Ciocca - Temos cinco crimes que utilizamos como parâmetros para medir a violência, que são os homicídios, furtos, roubos, furtos de veículos e roubos de veículos. Os cinco estão em queda na região da Delegacia Seccional de Bauru, mas o mais difícil de ser prevenido é o homicídio. O que a polícia tem feito para combatê-lo é investir na apreensão de drogas e armas, mas há certos casos que acontecem no interior de residências ou hospedagens em que não há como a polícia prevenir. Nesses casos, cabe a nós apenas a repreensão, que é a cadeia. Ficamos preocupados, porque são coisas que independem da nossa vontade e fogem da nossa capacidade de agir.
Com relação às armas apreendidas, podemos afirmar que todas as armas utilizadas em crimes violentos, de morte, são clandestinas e ilegais. Todos os meses apreendemos, em média, 50 ou 60 delas na região. Precisamos descobrir de onde elas vêm, porque em Bauru não há fábricas de armas. Em termos de entorpecentes, no ano passado batemos recordes de apreensão de drogas na região. Hoje, trabalhamos mais com a inteligência do que com a força. Passamos diariamente os dados que apuramos para a Polícia Militar, para que ela possa direcionar o policiamento preventivo.
JC - Diante desse trabalho que vem sendo feito, é possível traçar um perfil do criminoso?
Ciocca - Durante o ano passado foram presas, na área da Delegacia Seccional, 2.055 pessoas. Sabemos que a grande maioria delas é de jovens e nos preocupa saber o que os têm levado a cometer crimes. Segundo eles, é o desemprego, a falta de educação e cultura, enfim, uma série de coisas que levam à violência. A polícia, na verdade, é o final da linha. Quando ninguém mais dá jeito e o criminoso passou por todas as fases da vida e todo mundo falhou, ele cai nas nossas mãos e o que nós temos a oferecer a ele é apenas uma cela. No ano passado, por exemplo, triplicamos o número de apreensões de jovens infrantores.
JC - Como mudar esse quadro?
Ciocca - O grande investimento que deve ser feito, quando se fala em segurança pública e violência, é em relação à criança. O adolescente que entra no mundo da criminalidade já tem vícios e sua visão está formada. Ele é de difícil recuperação. Já em relação ao adulto, sabemos que o índice de reincidência no crime é muito grande. Diante disso, devemos evitar que alguém entre na criminalidade. Se levarmos em conta o custo de um preso para o Estado, acho que é muito mais barato investir na criança do que cuidar do adulto. O investimento, portanto, tem que ser a longo prazo.
JC - Voltando à questão do álcool, tivemos na última segunda-feira a aprovação, na Câmara Municipal, de um projeto que proíbe a presença de bares a menos de 100 metros das escolas. O senhor aprova essa iniciativa?
Ciocca - Acho que, próximo a escolas, não é lugar de funcionar bar. Nós sabemos que é proibida a venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos e, se considerarmos que a totalidade da clientela desses bares é de adolescentes, não há motivo para esses estabelecimentos estarem ali. Também há outro projeto na Câmara que determina o fechamento de todos os bares da cidade após determinado horário, mas acho que é uma lei de difícil fiscalização, porque é preciso ter um parâmetro para indicar quem teria que fechar ou não.
JC - O senhor também comentou que praticamente todas as armas apreendidas em Bauru são ilegais. Diante disso, que impacto pode trazer o Estatuto do Desarmamento no combate ao crime?
Ciocca - Qualquer medida que venha para ajudar no combate à violência é bem-vinda e esse é o caso do estatuto. Em Bauru, nós já tínhamos um controle rígido sobre as armas. Por isso é que eu disse que a nossa preocupação são as armas ilícitas ou ilegais. Para se ter uma idéia, a Delegacia Seccional, que é o único órgão que registra armas na região, autorizou apenas uma compra e sete portes de armas em 2003. Com o estatuto, isso se tornou ainda mais rigoroso. Nós entendemos e defendemos que quem deve portar e ter armas é apenas a polícia. Em um mero acidente de trânsito, se a pessoa estiver armada pode provocar um crime bárbaro. Em casa, se a arma estiver bem escondida perde a função, porque será difícil alcançá-la em casos de emergência. Se estiver em local de fácil acesso, uma criança ou pessoa da família pode pegá-la e fazer mau uso. Tanto que são histórias e mais histórias de acidentes em residências.
JC - No ano passado, a polícia de Bauru fez um grande esforço para diminuir o número de vítimas de homicídios e de vítimas fatais no trânsito em relação a 2002. Em ambos os casos houve êxito, mas nesse início de ano esses índices voltaram a subir. Essa situação preocupa?
Ciocca - O número de homicídios permanece igual em relação ao mesmo período do ano passado, com 12 casos de janeiro a março. O que tivemos foi um acréscimo no número de vítimas, já que houve um triplo homicídio e dois duplos homicídios. Até o momento, podemos dizer que 2004 está sendo um ano atípico. Estamos trabalhando para que, no mínimo, os números se mantenham estáveis e não haja crescimento. Algo que pode nos auxiliar é que o índice de esclarecimento de homicídios é muito alto em Bauru, chegando a 80% ou 90%. Isso é um fator inibidor para os criminosos. Temos um setor que cuida apenas desse tipo de caso e os resultados são bastante satisfatórios. Outro ponto positivo é que o crime de latrocínio praticamente não existe em Bauru. No ano passado, foram dois casos de janeiro a março e, em 2004, não tivemos nenhum. No comparativo entre esses dois períodos, também houve uma diminuição de 15% nos casos de roubos e os roubos de veículos caíram 7%. De uma forma geral, a criminalidade está estável, mas há esses casos da banalização da violência, que a gente não entende porquê acontecem e tenta buscar uma explicação.
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Efeitos
Segundo a psicóloga Débora Cristina Fonseca, o consumo de álcool e drogas provoca uma modificação no organismo. “Esse efeito acaba, muita vezes, alterando o estado de consciência da pessoa, que fica mais valente ou acaba se sobrepondo a algumas características que são suas”, explica.
Ela lembra, porém, que a prática do homicídio também depende de outros fatores. “Entre eles, por exemplo, a condição em que o indivíduo vive e a sua história de vida. Unidos ao álcool e à droga, podem conduzir o sujeito a se envolver com atos infracionais”, comenta.