Não sou pacifista, apesar de ser amante da paz e ter a consciência de seu imenso valor, humano e político. Não sou porque não sacrifico a paz a outros valores como a liberdade, a pátria, a dignidade. Pelas mesmas razões, nunca fui capitulacionista. Tenho muito claro que o terrorismo global - que não se deve confundir com o terrorismo herdado dos anos 70 e 80, como o do Ira ou do ETA - representa o horror absoluto e por isso deve ser combatido com toda determinação, força e coragem. Também deve ser combatido com inteligência, informação e conhecimento. A força militar é necessária, mas não suficiente.
Por se tratar de um fenômeno novo e complexo, nascido do fanatismo islâmico, temos de considerar outros componentes, entre eles a humilhação profunda com relação ao ocidente das populações que o terrorismo penetra e as condições socioeconômicas nas quais prolifera. O que é a Al-Qaeda? Uma galáxia descentralizada de grupos terroristas organizados em uma rede? E se assim for, a captura de Ossama Bin Laden não seria tão irrelevante quanto a prisão de Sadam Hussein? Numerosas análises foram escritas sobre o terrorismo global, que está intimamente relacionado à “globalização depredadora” e à “economia de cassino” que prevalecem. É preciso estudá-la e explorar os contatos que a Al-Qaeda parece ter com o mundo obscuro das finanças - dos off-shores e dos paraísos fiscais -, com o tráfico ilegal de armas, incluídas as atômicas, e com o mercado da droga.
Deve-se ouvir os teólogos, os intelectuais, os especialistas em política e os cientistas islâmicos. Eles nos darão pistas para um diálogo fecundo. A negociação começa desta maneira. Mas partindo de um oposição de força. Além disso, negociar não significa ceder, e muito menos abdicar. Tudo isso serve para explicar porque critico frontalmente a estratégia de represálias, delineada pela administração Bush para combater o terrorismo, discordo de seu unilateralismo confesso e coloco que dúvida seus resultado.
Bush agora quer se aproximar das Nações Unidas e da União Européia, que objetivamente dividiu, como parte de sua estratégia para vencer as eleições de novembro próximo. Exortou a ONU a regressar ao Iraque, mas não acertou a definição do novo quadro de relações no qual atuaria. Estou convencido de que, apesar de seus efeitos devastadores, dificilmente a estratégia de Bush mudará antes das eleições de novembro. É certo que as democracias não negociam com terroristas? A história está cheia de exemplos contrários e citarei somente dois recentes dos quais a América de Norte de Bush e o Reino Unido de Blair foram protagonistas.
A negociação com o líder líbio Kaddafi, considerado um terrorista e também um financiador sistemático de terroristas. Isso não impediu que negociassem com ele até convertê-lo em um amigo. A recente visita de Blair à Líbia consagrou a reabilitação de Kaddafi. E a negociação de Washington, com a intermediação de Pequim, com a Coréia do Norte, país incluído por Bush no “eixo do mal”, depois de ter ameaçado o Ocidente com sua bomba atômica. A negociação acontece, mas seus resultados ainda não foram divulgados.
Espero que o argumento que exponho aqui faça parte das reflexões a respeito do flagelo do terrorismo, uma ameaça gravíssima, complexa e nova para nosso perturbado século XXI. Se assim fosse, teria valido a pena cometer o enorme escândalo de associar duas palavras que habitualmente são evocadas em separado: negociação e terrorismo.
O autor, Mário Soares, foi presidente de Portugal.