Hora de ir para a escola. Na mochila, não faltam cadernos, livros, canetas coloridas e... um aparelho celular. A telefonia móvel virou mania entre a garotada de 9 a 11 anos, os chamados pré-adolescentes (teens, em inglês), que adotaram o equipamento como item obrigatório em seus acessórios.
As empresas de telefonia logo detectaram essa “febre” de consumo e passaram a criar serviços e equipamentos destinados a esse público, que quer sempre estar à frente da tecnologia. “Esse fenômeno foi detectado no início de 2003 e, de lá para cá, as empresas estão investindo pesado nesse nicho”, explica o gerente de conteúdo de dados de uma operadora, André Mafra.
A necessidade de estar sempre inovando está diretamente ligada à rapidez com que as crianças e pré-adolescentes absorvem a tecnologia. “Eles sabem mexer no celular e aproveitar todos os recursos muito melhor do que os pais, que só usam o equipamento para fazer e receber chamadas”, salienta Mafra.
Mas qual a real necessidade de uma criança de 9, 10, 11 anos, ter um celular? Para os pais, isso geralmente está ligado ao conceito de segurança, ou seja, uma maneira de estar sempre por dentro dos passos do filho; já as crianças querem mesmo é se sentir inseridas em seu grupo.
A reportagem esteve num colégio particular de Bauru e constatou que grande parte dos alunos da 5.ª série (que estão na casa dos 10, 11 anos) possui um aparelho de telefone móvel. O motivo? “Ah! Todas as minhas amigas têm e eu queria um também”, diz Victória Dutra Kennerly, 11 anos.
Maria Fernanda Misquiatti Setti, 11 anos, reforça o pensamento da colega. “Eu queria ter porque todo mundo da minha idade tem.”
Meninas
Outro fator constatado na escola é que a maioria dos pré-adolescentes “loucos” por celular é do sexo feminino. “Na nossa sala só tem um menino que tem”, conta Maria Fernanda.
O rapaz em questão é Luciano Henrique Ramos Nogueira, 10 anos. Ele diz que não usa muito o aparelho e que dificilmente liga para os amigos. “É mais para ter mesmo. Eu achei que seria legal e minha mãe me deu um”, diz.
Segundo ele, as meninas é que gostam de falar ao telefone. “Elas usam muito mais que a gente (os garotos)”, conta.
Luiza Lima Gonçalves Pinto Fernandes, 11 anos, destaca que costuma ficar cerca de quatro horas por dia ao aparelho. “Eu telefono bastante para minhas amigas”, diz.
O sonho de ter um celular novinho, repleto de recursos modernos, não é tão simples quanto parece. Os pais geralmente acham que os filhos pré-adolescentes não precisam andar com o aparelho pendurado no bolso. Por isso, são contundentes em negar o pedido.
“Desde pequena eu queria ter um porque minha irmã mais velha já tinha. Eu sempre pedia para o meu pai e ele falava não”, ressalta Verônica Machado Antiga, 11 anos.
Certo dia, ela diz que levou seu pai até o shopping e falou: “Pai, do mesmo jeito que você trabalha e tem amigos, eu estudo e tenho amigas. Também tenho o direito de ter um celular”. O argumento funcionou e ela ganhou um de Natal.
Verônica Mendonça ganhou o aparelho que era do pai, antes dele falecer. Até hoje ela anda com o celular, mas já tem a promessa do tio de que vai ganhar um novo. “Ele vai me dar um mais moderno.”
Victória e Luiza também ganharam o tão esperado presente dos tios. “Meu tio trabalha numa empresa de telefonia e me deu um”, conta Victória. “Minha tia me deu de aniversário”, explica Luiza.
A mãe dela, Maria Luiza Lima, destaca que a menina pedia o mimo há muito tempo, mas ela achava errado uma criança ter celular. “Até que ela apelou para a tia”, salienta.
Hoje, um ano depois do episódio, Maria Luiza diz que aprendeu a apreciar a idéia de sua filha ter um celular. “Me sinto mais segura, pois posso localizá-la onde quiser.”
Gastos
A preocupação é com relação aos gastos - já que o aparelho é pós-pago - e com o uso inadequado. “Tem que controlar a conta e não pode levar na escola”, ressalta a mãe.
Esmeralda da Silveira Pereira, mãe de Victória, diz que gostou da idéia da filha ter um celular, apesar da pouca idade. “Facilita muito a nossa comunicação. Apesar de ela ainda não sair com as amigas à noite, quando não está em casa eu consigo achar facilmente”, destaca.
Como o aparelho é pré-pago, Esmeralda diz que consegue controlar melhor os gastos da filha. “Eu só recarrego na medida do possível e a ensino a economizar.”
A psicóloga Marly Rodrigues Bighetti Godoy acredita que não há mal nenhum no fato de crianças terem celular. “É como um brinquedo para elas, pois é exibido aos amigos como se fosse uma boneca ou um carrinho de última geração”, salienta.
No entanto, ela ressalta que é necessário orientar esses pequenos usuários para não abusar dos gastos.
Ela diz que é uma oportunidade de ensinar para essa moçada o que é limite de uso e responsabilidade.