O julgamento de Jesus é tema tratado há muitos séculos. Durante esse tempo, este foi assunto para escultores, pintores, escritores, etc. Os motivos são os mais diversos. Muitos pela fé. Outros, pela arte. E até mesmo por dinheiro. É o caso do filme de Mel Gibson “A Paixão de Cristo”, onde explora a violência máxima para chocar os assistentes. Os fatos apresentados são do conhecimento de todos, mas nunca foram dados com tanta ênfase ao sofrimento. Das opiniões formuladas a respeito, encontramos as mais variadas. Dentre elas, a de que o filme não é religioso. Assim, perguntamos. É de ficção? É de terror ou é de suspense?
Certeza, só uma. Ele não é histórico. De histórico, só encontraremos nele a crucificação de Jesus pelas autoridades romanas (Pilatos), com a conivência das altas autoridades judaicas. Os demais fatos ocorridos nas 12 últimas horas de vida de Jesus só se apresentam nas narrativas dos evangelhos. Infelizmente, qualquer tentativa de trazer à tona os fatos que levaram Jesus à morte terá certamente de contar com os dados do Novo Testamento. É interessante observar que os quatro evangelhos são narrativas que apresentam variação de datas, locais, palavras, etc. Porém, quando tratam da Paixão, narram-na, passo a passo, de uma maneira quase jornalística, impressionantemente detalhista. E tudo isso, narrado por quem nada viu.
Quando Jesus foi preso, seus companheiros temeram e fugiram todos. E apenas algumas mulheres estavam presentes quando da crucificação. Como então conseguiram os dados tão precisos a respeito dos acontecimentos ocorridos depois da prisão? Apenas o autor do evangelho de João, 60 anos após o martírio, cita a presença no julgamento de uma testemunha ocular (não cita nome) que seria parente do sumo sacerdote? Por que Jesus foi preso? Por questões políticas? Por questões religiosas? Por quê? Político não foi, com certeza. Se assim fosse, sem dúvida alguma, sua mãe, irmãos e companheiros teriam o mesmo destino dele.
Através da História sabemos que Pilatos não era aquele romano apresentado pelos evangelistas. Temeroso, vulnerável, cordial, manobrável e que aceitaria palpites nas suas decisões. Em outras oportunidades, sempre se mostrou cruel e implacável, extremamente zeloso de suas funções. Se o motivo fosse de crença, certamente Pilatos nem participaria. Era muito freqüente na Judéia de então, as contendas entre grupos religiosos. Por esses motivos, saduceus, levitas, fariseus, essenios e grupos menores, abriam lutas ardentes na interpretação dos textos sagrados. As autoridades romanas não se envolviam nessas desavenças. Aquela região era um caldeirão religioso. Ali apareciam rabis, curandeiros, pregadores, salvadores, messias, profetas, etc, trazendo suas mensagens, muitas vezes contra o templo e a religião oficial, sem nunca serem molestados pelo poder. Isto nos revela a existência de uma certa liberdade religiosa. Nunca houve caso de alguém condenado por blasfêmia. Seria Jesus o primeiro caso?
Ele sempre foi contra a ordem religiosa estabelecida. Falou muito atacando abertamente a instituição religiosa e o Templo. Porém, naquela quinta-feira, ele deve ter extrapolado. Falar contra a religião e o Templo é uma coisa. Agora, ir lá e provocar um quebra-quebra é outra. A situação muda, e muito. O que apenas irritava, agora torna-se preocupante e perigoso. Pode ser princípio de rebelião. É crime capital.
Jesus foi preso na antevéspera do Pessah, a festa dos pães ázimos. A mais importante do calendário religioso e que nenhum evangelista dos sinóticos se lembra durante a narrativa. Jerusalém estava com sua população quintuplicada como sempre acontecia nesse período. Peregrinos de todos os recantos se faziam presentes, armando suas tendas no perímetro urbano, pois era obrigatório. A cidade fervilhava. Desentendimentos e brigas deviam ser corriqueiros. A guarnição romana estava sempre reforçada e pronta para entrar em ação a qualquer princípio de tumulto. O brutal controle das multidões era sua especialidade.
Quanto às autoridades judaicas, estas estavam de corpo, mente e alma abraçadas aos preparativos do grande acontecimento próximo. O Pessah. Não teriam tempo e muito menos vontade de participarem de qualquer julgamento. Quanto mais na madrugada. Fosse quem fosse, adiaria-se o processo para depois das comemorações como já havia acontecido antes.
Agora, se a punição tivesse a finalidade de acalmar tumultos, servir de exemplo para desordeiros que pudessem por em risco a segurança da cidade e do próprio poder, que fosse rápida. Assim, deveria ser em virtude de acordos existentes entre romanos e judeus para segurança de todos. Abrimos aqui um parênteses para lembrarmos de João Batista. Ele, muito mais influente na população e com muito mais seguidores do que Jesus foi preso, levado à fortaleza, e lá, sumariamente decapitado. E ficou nisso. E para Jesus, um grande desconhecido camponês em Jerusalém, com menos influência e seguidores do que Batista, para que um julgamento? Concluindo, podemos dizer com certa segurança, que devido aos distúrbios provocados no Templo, Jesus de Nazaré pode muito bem ter sido preso e executado. Mas de forma alguma teve um julgamento no intermédio.
Antônio Grecco - RG 5.223.420