Cultura

Monolitos sagrados

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

Já familiarizado com a cultura da Ilha de Páscoa, o visitante poderá apreciar a terceira parte da exposição, que contempla especialmente os monolitos de pedra criados pelo povo pascoense. Inspirada na religião, as esculturas feitas de rochas vulcânicas tinham entre três e dez metros de altura e pesavam centenas de toneladas.

Precisamente cortadas e estilizados, esses monolitos foram posicionados ao longo da ilha. A construção dessas esculturas e seu transporte representam um grande enigma. Segundo Cárcamo, diversas teorias arriscam explicar os procedimentos de engenharia utilizados pela civilização pascoense, mas as reais técnicas ainda constituem um mistério.

“Os monolitos estão espalhados por toda a ilha e é difícil imaginar que somente com a força humana era possível transportar uma estátua que pesava cerca de 25 toneladas”, diz Cárcamo.

A beleza e suntuosidade dessas esculturas se destacam na série de telas da exposição. Divididas em três painéis, as obras - todas legendadas - buscam enfatizar a estreita ligação entre os moais e a cultura da ilha. Segundo as lendas, as estátuas simbolizavam os antepassados pascoenses e eram colocadas em altares ao ar livre chamados ahu. Nesses lugares, elas eram cultuadas.

“Assim como em outras civilizações, essa cultura tinha necessidade de explicar o sentido de sua existência. O culto era uma maneira de homenagear entes superiores representados da forma que eles imaginavam”, comenta Cárcamo.

Visando reforçar o lado místico dessas esculturas, o artista abusou da plasticidade em suas telas. As formas se destacam através do uso de cores tropicais, que segundo Cárcamo, eram muito evidentes na ilha. Assim, tonalidades em marrom, verde e amarelo invadem as telas.

Entre os exemplos que marcam a intensidade das cores estão as obras “Moai Ature em Ana Kena” e “Moai Tuturi próximo ao vulcão Rano raraku”, que mostram as figuras pintadas em primeiro plano tendo ao fundo a natureza da ilha.

O maior monumento colocado em um desses santuários ultrapassava 83 toneladas e media nove metros de altura. Grande parte das estátuas foram talhadas no alto das ladeiras interiores e exteriores do vulcão Rano Raraku. Ao final da mostra, o visitante encontrará uma réplica de um monolito, que mede cerca de três metros de altura.

Extinção

A mostra apresentada no Sesi busca divulgar a cultura pascoense. Após sofrer o processo de colonização pré-colombiana, a ilha teve seus hábitos e crenças religiosas esquecidos. “O culto aos monolitos terminou com a chegada dos conquistadores a partir de 1.600, que se encarregaram de dizimar essa civilização”, diz Cárcamo.

Os nativos foram convertidos ao catolicismo. “Alguns foram levados como escravos para trabalharem no Peru”, ressalta o artista. Em 1988, o Chile declarou sua soberania perante a ilha e desde 1935, ela é considerada patrimônio histórico da humanidade.

Atualmente, a Ilha de Páscoa se transformou em um local turístico, que conta com infra-estrutura para acolher visitantes interessados em suas belezas. “O turismo é uma das principais fontes de renda da ilha”, conta Cárcamo. Para atender os visitantes, os nativos ainda praticam alguns cultos e rituais típicos.

• Serviço

Mostra sobre a Ilha de Páscoa, de Gonzalo Cárcamo, pode ser apreciada gratuitamente até sábado, no Sesi. O horário de funcionamento é de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h; e aos sábados, das 9h às 11h30 e das 13h30 às 18h. Rua Rubens Arruda, 8-50, Altos da Cidade. Informações: (14) 3234-1066 ou (14) 3223-2718.

____________________

Quem é o artista

Nascido em 1954, no Chile, o artista plástico e caricaturista Gonzalo Cárcamo já dominava, aos 22 anos, as técnicas da aquarela e do óleo sobre tela. Se mudou para São Paulo em 1976, onde começou a trabalhar em agências de publicidade e produtoras de desenho animado.

Cárcamo se destacou como cenarista de comerciais para a televisão e curtas-metragens para os estúdios Walt Disney, na HGN. Em 1980, realizou sua primeira exposição de aquarelas. Denominada “Vila Rica - de Aldeia a Patrimônio”, ela retratava a cidade histórica de Ouro Preto, em Minas Gerais.

As primeiras caricaturas do artista foram publicadas em 1986, no semanário O Pasquim. No ano seguinte, mostrou seus trabalhos no diário El Pais de Barcelona, Espanha e se tornou colaborador das revistas Penthouse e TVE.

A partir de 1988, Cárcamo passou a trabalhar em revistas e jornais brasileiros, como o Jornal da Bahia. Em 2002, lançou o livro “Modelo Vivo - Natureza Morta”, que traz imagens sobre a natureza e o homem. No mesmo ano, participou da mostra “Florentino, 22” no Rio de Janeiro, retratando grandes mestres da MPB. Nessa exposição, o artista trabalhou ao lado dos caricaturistas Lan, Chico, Paulo Caruso, Dalcio e Aroeira.

Recentemente, o artista participou do livro “A Baleiazinha”, de Pedro Bandeira, o primeiro da série Histórias de Ecologia - lançado na 11.ª Bienal Internacional do Livro do Rio. Atualmente Cárcamo ilustra livros para editoras e divide seu tempo entre os trabalhos desenvolvidos em seu atelier em São Paulo, e sua galeria de arte em Parati, inaugurada em 2000.

Comentários

Comentários