Ah, que saudades da Guanabara! O Rio de Janeiro deixara de ser a Capital do Brasil, mas tinha ganho um Estado só para ele. Niterói era a Capital do Estado do Rio, mas o Rio era a Capital do Estado da Guanabara. Cidade-Estado, que estava mais para Atenas que para Esparta. O Rio era uma deliciosa confusão, que dava samba e bossa-nova. Tinha malandragem, sim! Tinha “Boca de Ouro”, Madame Satã, Lúcio Flávio... Mas também tinha Vinícius, Tom e Leila Diniz. Era a Cidade Maravilhosa!
Toda a menina que passava era cheia de graça e, mesmo chovendo sem parar, sempre tinha alguém correndo para ver o seu amor. Erasmo Carlos podia esperar uma eternidade por Narinha, em frente ao coqueiro verde, que não corria nenhum risco. Arrastão? Só o dos pescadores e o sucesso de Elis. Quem visitava o Rio, ao partir, levava consigo a doce lembrança do Pão de Açúcar. O morro não tinha vez, mas era lugar de gente bamba e trabalhadora, de malandragem com glamour e de samba de primeira qualidade. Se as rosas não falavam, Cartola, Paulinho da Viola e Martinho da Vila eram seus porta-vozes. A tristeza vinha de um barracão de zinco ou de um chão de estrelas, mas, até nisso, havia inspiração para uma poesia, para um “Orfeu da Conceição”.
Um dia, a Guanabara deixou de ser Estado e o Rio perdeu aquela inocência. Hoje, quem passa correndo não está indo ver o seu amor: Ou está fugindo da polícia ou correndo atrás de ladrão, se não tiver amor à vida. A menina cheia de graça não pode mais ser admirada, pois ela pode ser “mina” de um “pitboy” ou amante de um traficante da pesada. O morro ficou uma droga, que está maculando a imagem de gente boa e viciando a cidade. Quem levava a doce lembrança do Pão de Açúcar hoje corre o risco de levar bala, que de doce não tem nada. A Linha Vermelha é de sangue! A Linha Amarela é de medo! Os meninos que sonhavam com um pandeiro e uma cuíca, hoje sonham com um ponto de venda de droga, com uma pistola automática, com uma USI ou com um AR-15. Quem, ontem, podia dançar a “Valsa de uma Cidade”, na rua, hoje corre o risco de “dançar”, até, deitado na cama. Morte súbita... Até do Vidigal - das milícias do império - já estão sentindo falta... Nem malandro consegue se segurar!
Quem vai ao Rio, hoje, talvez diga: “- Que droga!” - e se surpreenda com alguém retrucando: “- A que você quisé, cara! E da boa...”. Quem olhava para o céu, enamorado, à procura de estrelas cadentes, hoje só vê, amedrontado, balas “traçantes”! Rio Babilônia... Rio 40 graus... Mas, apesar das balas, nem tudo está perdido! O Rio ficou pequeno... Pequeno em tudo! Pequeno de pai e mãe! Pequeno, sem pai nem mãe...
Chega de saudade, Rio! Nessa realidade não há paz... Não há beleza! Olha! O Cristo Redentor ainda está lá, braços abertos sobre a Guanabara!
O Rio precisa voltar a ser grande, para que os garotinhos e garotinhas possam voltar a ser, apenas, crianças, cuja única preocupação deve ser brincar, aprender e descobrir a beleza de viver nessa cidade maravilhosa. Oh, meu Rio de Janeiro! Renasça das cinzas e do pó que te vicia! Refloresça, do Leme ao Pontal! Esse texto é só porque, Rio eu gosto de você!
O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é engenheiro, professor universitário e articulista.