Bairros

Bauruenses também compõem cenário

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

Mas a população das favelas de Bauru não é composta apenas por pessoas nascidas em outras cidades. Os bauruenses também fazem parte do cenário da periferia. São cidadãos que moravam em outros bairros e, geralmente por motivos financeiros, acabaram engrossando a comunidade dos bolsões de pobreza.

Vera Lúcia Marques da Rocha, 39 anos, já morou no Jardim Flórida, na Vila Bom Jesus e no Núcleo Fortunato Rocha Lima antes de mudar-se para um barraco na favela do Jardim Maria Célia, onde vive há quatro anos.

Ela divide o barraco apenas com o marido, mas ambos estão desempregados. Ele, que era pedreiro, teve derrame cerebral e já não consegue mais trabalho nem auxílio-doença. O casal vive de doações feitas por entidades assistenciais.

Os filhos de Vera Lúcia moram no Núcleo Bauru 2000 e no Jardim Bela Vista. Ambos trabalham, mas pouco ajudam os pais, que não têm condições de pagar aluguel em outro bairro.

Vera Lúcia frisa que não gosta de morar na favela. É falta de opção. Se tivesse condições, iria para um núcleo habitacional ou para casas construídas em sistema de mutirão.

Dirce Maria dos Santos, 45 anos, é outra bauruense que vive em favela. Ela mora no Parque Real há três anos.

Até então, morava no Jardim Vânia Maria, numa casa alugada. Sozinha, sustentava os dois filhos com bastante dificuldade, trabalhando como doméstica.

Quando a proprietária da casa pediu o imóvel, Dirce decidiu mudar-se para o Parque Real devido aos problemas financeiros. “Já que eu sustentava dois filhos, eu vim para não pagar aluguel”, conta.

A moradora construiu a casa num terreno público e hoje diz que gosta de morar no Parque Real, ainda que seja na favela. Ela trabalhava como doméstica, mas está desempregada. O filho mais velho recolhe recicláveis.

“Eu só sairia daqui por necessidade. Não tenho vontade de morar em outro bairro”, destaca.

Alex Ribeiro, 29 anos, mora na favela do Jardim Vitória há dois anos. Ele vive com a mãe, que está no local há dez anos. O rapaz, que está desempregado, morava no Jardim Independência e explica que mudou-se para ajudar a mãe, que tem deficiência física.

Ambos vivem da aposentadoria da mãe de Alex, além de alguns bicos que ele faz em bares quando aparecem oportunidades. Ele não gosta do bairro. “Se eu pudesse, iria para qualquer outro lugar. As ruas são muito ruins e há muita violência. A casa já foi furtada duas vezes”, justifica.

Família

Muitas vezes, estar próximo à família é o aspecto mais importante e principal motivador da mudança de cidade.

José Vaz da Silva, 71 anos, é um exemplo dessa situação. Ele nasceu em Arealva e mudou-se para o Paraná e para Goiás a trabalho. Em 1999, decidiu viver em Bauru, cidade em que seus filhos estavam morando.

O primeiro bairro em que morou foi o Parque São Geraldo, onde alugou uma casa. Pouco tempo depois, se aposentou e comprou um barraco na favela do Jardim Maria Célia, onde está até hoje.

“Eu preferi comprar um barraco a pagar aluguel. A aposentadoria não dá para nada”, frisa o morador, que sustenta a esposa, uma filha e cinco netos.

Na opinião de José, a favela é um local ruim para viver. Quando chove, as casas ficam inundadas. “É muito sujo para as crianças, não tem esgoto. As crianças ficam doentes. Mas não temos como morar em outro local. Se eu pudesse, eu voltaria para o Parque São Geraldo”, expõe.

Apesar do desemprego da filha e da esposa, José diz que gosta de Bauru. “O problema é que não tem emprego. Não recebemos ajuda do governo nem de ninguém”, salienta.

Benedito da Silva, 42 anos, é outro morador da favela do Jardim Maria Célia que teve motivações familiares para a mudança para Bauru. Natural de Paulistânia (SP), mudou-se para Agudos coma família aos 7 anos de idade.

Aos 23 anos de idade, casou-se com uma bauruense que morava na Vila Bom Jesus e mudou-se para Bauru. Devido às dificuldades financeiras, o casal acabou optando por construir um barraco no Jardim Maria Célia.

Hoje, Benedito cata papel nas ruas da cidade. Mora com a esposa e um neto. Os filhos vivem em Agudos. Ele conta que é difícil manter a casa. “Não temos nada de ajuda”, afirma.

Se pudesse, o morador trabalharia como caseiro em uma fazenda ou sítio. “Se for para mudar para outro bairro, prefiro ficar aqui. Pelo menos, não pago água nem luz”, argumenta.

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