Bairros

Nas favelas, 30% são migrantes

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

Aproximadamente 30% dos moradores das favelas de Bauru são migrantes. São pessoas vindas cidades da região ou até mesmo de outros Estados que adotaram o município geralmente para tentar melhores condições de vida. Embora os bauruenses ainda representem uma fatia significativa nos bolsões de pobreza e favelas, a grande quantidade de não-bauruenses preocupa.

As origens são diversas - são de Agudos a União dos Palmares, em Alagoas, passando por Araraquara (SP), Presidente Alves (SP), Cabrália Paulista (SP), Santa Maria (RS), Cuiabá (MT) e muitas outras.

As estatísticas são da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), que está traçando um perfil da população carente da cidade através do cadastramento único. Ele vai unificar os dados sobre famílias que participam de programas sociais em todo o município, facilitando o trabalho do poder público.

A pesquisa aponta, por exemplo, que 12,78% dos moradores de favelas são provenientes de Garça. No caso dos bolsões de pobreza, os garcenses representam 10% da comunidade.

Nas favelas de Bauru, São Paulo é a campeã entre os migrantes. Eles compõem 15,42% da população. Já nos bolsões de pobreza, a líder é Ibitinga - 14% das pessoas oriundas de outras cidades saíram de lá.

Em seguida, estão cidades como Duartina (SP), Pirajuí (SP), Londrina e Jaú (SP).

O mapeamento da Sebes apontou, ainda, os principais bairros envolvidos na migração interna de Bauru. Indica, por exemplo, que 14,42% dos moradores dos bolsões de pobreza de Bauru moravam no Parque Jaraguá.

Muitos moradores de favelas afirmam que decidiram mudar-se para Bauru em busca de emprego, conforme entrevistas cedidas ao JC nos Bairros.

Para controlar esse fluxo migratório, evitando que pessoas instalem-se em áreas de risco, o coordenador da Defesa Civil em Bauru, Álvaro de Brito, sugere que seja criado um centro de triagem de migrantes. O chefe de Gabinete da prefeitura, Antônio Sérgio Marsola, discorda e diz que o município não tem essa necessidade.

A Sebes lembra que existem atualmente em Bauru 17 favelas, num total estimado de 14 mil pessoas. Já os bolsões de pobreza estão distribuídos em 18 pontos da cidade e, sobre eles, não há dados estimados sobre o total da população migrante.

Avaliação

Na opinião do historiador Célio Losnak, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Bauru é procurada por pessoas de outras localidades por ser uma cidade de porte médio que tem grande quantidade de habitantes e passa a imagem de que possui uma forte economia.

“De acordo com estudos do pesquisador Jacques Vervier, da década de 80, as pessoas buscam pólos regionais”, argumenta.

O professor cita outras cidades que têm características semelhantes às de Bauru e que, por isso, também atraem migrantes. É o caso de Marília, Presidente Prudente e São José do Rio Preto, entre outras.

“São cidades médias que atraem essa população regional. A cidade aparece como a primeira perspectiva de trabalho já que é uma cidade maior e supõe-se que tenha mais condições de oferecer emprego”, diz.

Célio avalia que a principal motivação das migrações para Bauru seja a busca de emprego. A esperança é de que haja mais oportunidades.

“Há mais oportunidades? É uma boa pergunta. Mas uma constatação clara é que quando essas pessoas saem de cidades pequenas, a oportunidade de emprego ou atividade remunerada nesses lugares é menor do que em Bauru. Mesmo que aqui não consigam emprego fixo com carteira assinada”, diz

“O porte da cidade possibilita mais chances de obtenção de sucesso. Se ele for catador de latinhas de alumínio, em uma cidade maior ele terá mais oportunidade, já que há mais latinhas. Em Bauru, até para furtar e traficar tem mais oportunidades, se você comparar a Arealva e Reginópolis, por exemplo”, acrescenta Célio.

O historiador, entretanto, faz ressalvas. Ele afirma que a favela é alternativa para muitas pessoas que vêm de outras cidades, mas ela não decorre somente da migração. “Nos anos 50 e 60, tinha-se essa idéia em São Paulo - de que principalmente a migração nordestina estava transformando a cidade num caos. E não é bem assim”, expõe Célio.

Ele observa, ainda, que nem toda a população migrante está nas favelas de Bauru. “Acredito que não toda. Apenas parte dessa população - os setores mais pobres e a mão-de-obra menos qualificada. Mas existem outros segmentos”, explica.

“O estereótipo do migrante é o do pobre e do favelado. Mas o vilão da miséria e da favela é a migração de pessoas? O migrante não deve ser o vilão da cidade”, frisa o professor.

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