A crítica que se faz ao governo do PT, de que não tem um projeto estratégico para o País e sim um projeto de poder de longo alcance, a cujo coro se integrou a voz autorizada do ex-presidente Fernando Henrique, revela nuances da crise da representação política que, a cada eleição, se mostra mais aguda. Desde muito, elegem-se no Brasil personalidades e não programas, apesar de se verificar, nos últimos tempos, um movimento circular que começa a abrigar correntes críticas preocupadas com a substantivação da nossa democracia representativa. A verdade é que a maior base do eleitorado brasileiro cumpre papel essencialmente reativo, escolhendo à base da emoção, na esteira de uma cultura social fortemente imbuída de expectativas de paternalismo estatal.
Se, na acepção de Maurice Duverger, “para libertar o homem é preciso reduzir o poder público”, entre nós essa possibilidade ainda é bastante remota. O Estado continua regrando costumes e ditando práticas políticas, mesmo que se reconheça a diminuição de seus limites. A centralização das operações políticas no Executivo, tão criticada na administração anterior, se adensa no governo Lula, que não apenas bate recorde na emissão de Medidas Provisórias como se inclina ao retrocesso de “engordar o Estado”, promovendo a contratação de milhares de servidores para diversos setores da estrutura governamental.
Sob esse padrão de presidencialismo assistencialista, onipresente e onisciente, ganha densidade o perfil pessoal do dirigente. Acrescente-se a esse aspecto o fato de que Lula é um ícone de quatro letras fáceis de soletrar, com história pessoal que ainda desperta certo impacto e estilo que chama a atenção pela aparente determinação de dizer o que lhe vem à cabeça, doa a quem doer. Não se atordoa com críticas sobre promessas e idéias que se mostram inócuas, continuando a jurar que resolverá problemas de todo o tipo. Recentemente, em inflamada fala no programa “Café com presidente”, prometeu dentaduras à população desdentada.
Ora, esse estilo não apenas corrobora o providencialismo que imanta a imagem presidencial como contribui para esmaecer conceitos mais amplos e substantivos. Não se trata de atacar as causas que multiplicam a população banguela do País e afligem 95% dos brasileiros que sofrem de cárie e doença nas gengivas, e sim, de distribuir dentaduras. Atacar efeitos é coisa típica de política populista. De detalhe em detalhe, a somatória de varejos acaba canibalizando projetos no atacado, até porque a mídia tem propensão a dar mais espaço à expressões fragmentadas do dia a dia, que garantem curiosidade, sensação e polêmica. Juntem-se os fatores acima e se apura uma visão desconexa, a que projetos de alto impacto, como esta política industrial recém anunciada, não conseguem se impor.
Ademais, outra “qualidade” do líder messiânico é a de se atribuir o papel de “salvador da Pátria”. Ao dizer que “essa gente que desde Cabral governa o Brasil” quase nada fez, não podendo cobrar dele o que “eles não fizeram em 500 anos”, Lula tem sido injusto com muitos governantes. Para não falar de seus antecessores próximos, basta lembrar Getúlio Vargas, cujas falas eram sempre grandes, no sentido de apontar caminhos estratégicos, evitando veredas tortas e curtas.
Na campanha da reeleição, em 50, tinha na ponta da língua um programa de industrialização progressiva do País, que dava prioridade às indústrias de base; projetos bem estruturados para o sistema de transporte, enfim, um conjunto apreciável de idéias estratégicas. E não temia atacar questões que, hoje, são cruciais para o governo. Getúlio, em de setembro de 1950, dizia em Santa Maria (RS): “A política que se está seguindo, da valorização do dinheiro, é a da desvalorização do trabalho; ao passo que a política que devemos fazer é a do barateamento do dinheiro para que todos tenham trabalho”.
Portanto, o País cresceu muito pela força de projetos estratégicos e visões de longo alcance. Eleito com 54 milhões de votos, Lula nem por isso deve se considerar a divindade toda poderosa como insiste em querer se apresentar. Carece daquela simpatia e modéstia que irradiava o sorriso franco de Juscelino. Ou da autoridade engessada no perfil de um Jânio. (O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político)