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Rio Babilônia


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“Qualquer governo tem tanto dever de evitar a guerra quanto o capitão de um navio de evitar um naufrágio” - Maupassant. Tenho certeza que, assim como eu, todos os que lêem este artigo estão chocados com os acontecimentos dos últimos dias envolvendo a “guerra” entre quadrilhas de traficantes da Rocinha e do Vidigal, no Rio de Janeiro.

Uma guerra contínua desencadeada por um “governo” paralelo, com forças hierárquicas definidas e conhecidas e que tem como pano de fundo a posse de pontos de droga, a qual se assiste todos os dias, só que agora levada a assustadoras proporções de uma verdadeira guerrilha urbana, com direito a treinamento, uniformes e armamento pesado. Essa guerrilha contínua causou dez mortes nos últimos dias, além das que produz diariamente por bala perdida, vitimando inocentes, sejam eles moradores dos morros ou apenas em tráfego pelos locais dos “combates”, como sucedeu à professora mineira recém-moradora do Rio de Janeiro.

São vítimas igualmente as famílias dos mortos na guerrilha e a sociedade como um todo, que paga o preço desta tragédia e fica refém dessa situação que faz com que a Cidade Maravilhosa se transforme em uma verdadeira Babilônia.

Balas perdidas dessa guerrilha atingem diretamente o coração da economia do Estado do Rio do Janeiro e do Brasil por extensão, dado a insegurança e a intranqüilidade que geram e que por conseqüência provocam sensível redução da indústria do turismo, uma das maiores receitas carioca, além de prejudicar o comércio periférico à guerrilha que já acusa uma queda de 20% estimados em seu movimento, obviamente causando mais desemprego. Somado à guerrilha, temos que lamentar a divulgação do impressionante número de mortes por assassinato nos últimos vinte anos no Brasil, 600 mil, mais do que o número de mortos da guerra do Vietnã na década de 60.

Em paralelo a estes acontecimentos assistimos a deflagração de uma outra guerrilha, esta protagonizada por membros da três esferas de poder, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, representando o governo federal; a governadora Rosinha Matheus e seu valete da segurança pública, Anthony Garotinho, e o prefeito César Maia e seus coadjuvantes, todos equipados com uma das mais poderosas armas que se tem notícia desde os primórdios da humanidade, a retórica.

Sem querer discutir o mérito da retórica dessa guerrilha de vaidades e também sem desejar ser retórico, entendo que a responsabilidade é de todos não só neste episódio como em sua causa, que é estrutural e passa pelas três esferas de governo que têm a obrigação de assistir a sociedade principalmente com educação, saúde e oportunidades de trabalho.

Se houver responsabilidades por parte dos governos, episódios como esses serão, muito provavelmente, abortados em seu nascedouro ou significativamente reduzidos em um futuro não muito distante e, sobretudo, não será necessário empregar justificativas retóricas ou, como temia Maquiavel, governar com palavras, às quais eu acrescento as metáforas muito comuns ultimamente. Se todos os governantes se unirem e tiverem essas responsabilidades em suas consciências ficam na condição do capitão de navio de Maupassant e evitarão o naufrágio a que estaremos fadados se isto não ocorrer.

O autor, Willians Rafael, é advogado.

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