Há exatos 504 anos, um grupo de portugueses comandados por Pedro Álvares Cabral chegou a terras brasileiras para iniciar a colonização. O fato é amplamente conhecido e comemorado como “descobrimento do Brasil”. Há, entretanto, ressalvas a essa expressão. Hoje, prefere-se utilizar o termo invasão. Ou, ainda, conquista. É o que explica a historiadora Vera Lúcia Pereira Telles Nunes.
“Isso não é descobrimento. É conquista. Isso é uma invasão num momento em que existe um povo que mora aqui. É todo um contexto violento”, diz Vera, referindo-se aos conflitos travados entre índios e europeus.
A historiadora, que também atua como professora de história e sociologia na Universidade do Sagrado Coração (USC), salienta também que o mais forte motivo que justifica a comemoração do 22 de abril de 1500 é o surgimento do povo brasileiro.
“Eu acho que a gente pode comemorar o aparecimento, dentro de situações adversas, de uma nação maravilhosa”, reforça Vera Lúcia.
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao JC.
Jornal da Cidade - Há motivo para comemorar o 22 de abril?
Vera Lúcia Pereira Telles Nunes - Eu acho que você só ama o seu país quando você o conhece. Isso significa conhecer o lado bom e o lado ruim. E isso faz com que você não seja indiferente. Sobre essas datas cívicas, houve uma discussão muito grande na historiografia do Brasil, a partir dos anos 80 - se comemora, se não se comemora. Até porque, a partir da revolução de 1964, os militares no poder usaram essas datas de uma forma extremamente tendenciosa. Era a famosa educação moral e cívica, “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Então, as discussões pós-revolução de 64 foram sobre o que essas datas realmente representam para a população. Elas devem realmente ser comemoradas ou lembradas, analisadas, interpretadas? Eu acho que a memória precisa ser preservada. Não significa que essa memória tenha de ser como nós gostaríamos que fosse.
JC - Mas na sua opinião, deve-se ou não comemorá-lo?
Vera Lúcia - Eu acho que deve-se comemorar. Não é comemorar no sentido de que o que Portugal fez deva passar batido. Nesse aspecto, a atitude de Portugal diante da América Latina é fruto de um contexto histórico. Na Europa, estava acontecendo a formação dos estados nacionais, uma competitividade extremamente exacerbada entre as potências. Portugal é pioneiro nessa conjuntura política e quer condições de satisfazer uma burguesia comercial que havia amparado o estabelecimento de um estado moderno dentro do país. O Brasil é um negócio para Portugal. Nesse contexto, nós, brasileiros, não podemos deixar de lembrar que foi a partir dessa situação que nós começamos. E o grande antropólogo Darcy Ribeiro fala que, apesar de tudo isso, esses europeus que vieram para cá foram capazes, numa região inóspita, de construir uma civilização. E essa civilização é construída pelos portugueses, índios e africanos. O que resta desse embate e das relações de dominação existentes? Para mim, fica um povo maravilhoso que é o brasileiro - hospitaleiro, criativo, esperançoso, alegre, trabalhador e que tem uma paciência enorme com seus representantes. Nesse contexto é que eu acho que a gente pode comemorar o aparecimento, dentro de situações adversas, de uma nação maravilhosa.
JC - O termo descobrimento é o mais adequado para falar sobre o 22 de abril?
Vera Lúcia - Ao falar sobre isso, hoje, eu pensei na situação do Iraque. Hoje, você tem claro que o que aconteceu no Iraque foi uma invasão. Mas por que o Iraque? Obviamente que por interesses econômicos. É todo um conjunto de necessidades de dominar uma região extremamente importante dentro do contexto internacional hoje. Ponto. Brasil de 1500. Não vou dizer que a situação é idêntica porque seria uma heresia falar isso. Mas se você pegar o motivo que levou Portugal a lançar a sua trajetória marítima, a gente pode fazer algumas analogias. Por que conquista? Porque, na verdade, Portugal já sabia da existência do continente americano. Tanto que tinha o tratado de Tordesilhas, que é de 1494. Quando se armou uma poderosíssima esquadra para Pedro Álvares Cabral, a idéia era vir ao Brasil, tomar posse, e ir à Índia. O desejo era fazer um comércio internacional em larga escala por outra rota e que chegasse ao fornecedor direto sem intermediário. No caso, os árabes. Essa esquadra não era uma esquadra. Era uma armada. Ele ia com canhão, com soldado. E isso a história tradicional não tratava. Como você descobre um lugar e toma posse? Isso não é descobrimento. É conquista. Isso é uma invasão num momento em que existe um povo que mora aqui. É todo um contexto violento.
JC - E por falar em violência, qual é a opinião da senhora sobre a versão de que o relacionamento dos portugueses com os índios foi pacífico?
Vera Lúcia - Acredita-se que nós tínhamos aproximadamente de cinco a seis milhões de índios. E hoje, no Brasil, não temos mais que 300 mil. Foi um holocausto. Esse contato com o indígena num primeiro momento foi um contato muito legal. Algumas tribos indígenas da orla litorânea foram receptivas a essa chegada de povos estrangeiros e se relacionaram bem. O problema começa no momento em que Portugal deixa de ter um contato superficial com o Brasil e passa a precisar ocupar o Brasil efetivamente com uma colonização em larga escala para não perdê-lo. A França, os ingleses e outros países estavam de olho aqui. A colonização que se necessita montar aqui é voltada para o comércio externo. O açúcar se apresenta como um produto de alta aceitação na Europa e com preços excelentes. Nesse tipo de empreendimento necessita-se de mão-de-obra em larga escala. O índio se apresenta como “bonzinho”, trabalhador. Por conta de ser “bonzinho”, ele é cooptado e literalmente escravizado. E ele resiste. A escravização foi violenta. O índio se rebelava, fugia, se suicidava, agredia colono. Aí, passou-se a idéia contrária - de que ele é selvagem, violento, desleal. Mas quem de nós gostaria de ser escravizado na sua terra? Isso ninguém pode perder de vista quando se lembra o 22 de abril.
JC - Na opinião da senhora, o ensino da história do Brasil atualmente, nos bancos escolares, é adequado ou ainda se passa uma versão ultrapassada e incoerente com a realidade?
Vera Lúcia - Eu acredito que não mudou muito. Infelizmente. Isso não quer dizer que não existam nichos, principalmente nas regiões Sudeste e Sul, de revisão dessa postura. Mas na totalidade do nosso País, acredito que ainda temos uma longa caminhada. Daí a responsabilidade da imprensa. A imprensa é fundamental. É história imediata.
JC - Esse longo caminho a percorrer não é preocupante?
Vera Lúcia - Eu acho preocupante se a gente levar em conta que grande parte da responsabilidade na sala de aula é formar o homem consciente. Justamente por ser esclarecido e consciente, ser protegido de cooptação política, interesses escusos em eleições, de um discurso mentiroso. Mas a maior parte da população não lê, não tem educação adequada. Eu acho isso uma tragédia. Extremamente dramático. Eu espero que os professores estejam se interessando em rever seus posicionamentos em sala de aula. Que eles possam dar possibilidade para seus alunos de analisar o fato histórico. E que, talvez, essa criança que recebeu essas diferentes vertentes de um fato histórico possa fazer com lucidez as suas opções.
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Fenômeno da Santidade
De acordo com a historiadora Vera Lúcia Pereira Telles Nunes, a escravização dos índios pelo europeu, durante a colonização do Brasil, é um dos aspectos esquecidos da historiografia do País.
A história tradicional do Brasil trata do primeiro contato do índio com o europeu, quando da chegada dos portugueses às terras brasileiras. Depois, ele só reaparece na entrada das bandeiras, quando torna-se elemento importante na penetração do bandeirante para o Interior por conhecer a região.
Mas Vera Lúcia revela que o índio resiste bravamente à escravização. Foge e funda um movimento na Bahia que, segundo ela, a história oficial nunca comentou.
O movimento foi tão violento que apavorou os grandes latifundiários daquele Estado. Os índios começaram a atrair cada vez mais índios para a floresta e fundaram quilombos. Não como os africanos. Eram agrupamentos de pessoas com conotação ideológica. Foi o chamado Fenômeno da Santidade.
A historiadora explica que os índios acreditavam que, se assumissem posturas semelhantes às dos europeus na violência e na agressividade, conseguiriam expulsar os brancos de suas terras.
“Eles incorporaram às suas práticas religiosas indígenas alguns componentes cristãos. Achavam que, dominando esses componentes religiosos, estariam fortalecidos para combater o oponente”, explica.
Foi um fenômeno que durou mais de 50 anos. “Assolou de terror a Bahia no auge da produção da cana-de-açúcar. Atemorizou profundamente os colonos porque negros também eram incorporados a esses redutos de resistência indígena”, complementa Vera Lúcia.
Ela enfatiza que a escravização do índio não desaparece com a introdução da escravização negra. “Ao longo de toda a história do Brasil, houve escravização indígena”, frisa.