Regional

Fernão não tem onde enterrar mortos

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Fernão (50 quilômetros a Oeste de Bauru) é um município atípico do Estado de São Paulo, onde ninguém nasce e ninguém pode ser enterrado. Isso porque na cidade não tem hospital nem cemitério. Os nascimentos são programados e os partos feitos em hospitais de Marília e os mortos são enterrados em Gália, Garça, Marília ou Duartina.

O único cemitério que Fernão teve está desativado há mais de 50 anos, calcula o atual prefeito, Adélcio Aparecido Martins. “O que existe hoje, numa fazenda particular, são vestígios de um cemitério.”

Como a prefeitura não tem domínio da área, os poucos túmulos que ainda restam no local, foram cercados e a administração municipal garante que faz a limpeza.O prefeito, que mora na cidade desde que nasceu, diz que não se lembra de ninguém que tenha sido enterrado no local. “Ele foi instalado quando Fernão era apenas uma vila.”Sem local apropriado para enterrar seus mortos, os moradores compram lotes nos cemitérios da região. “Especialmente em Duartina e Gália, para onde os corpos são levados após o velório.”

A atual administração diz que pretende construir um cemitério na cidade, mas que esbarra no velho problema da falta de verbas. “Aguardo recursos estaduais ou federais. A arrecadação de Fernão é pequena, tem apenas 1.500 moradores.”

A área para construir um cemitério em Fernão já foi escolhida, porém o projeto ainda não está pronto. “A prefeitura desapropriou uma área de 20 mil metros quadrados para a instalação do cemitério, porém as exigências são muitas e um engenheiro foi designado para preparar a documentação e cumprir a lei.”

O novo cemitério, caso a área escolhida seja aprovada pelos órgãos competentes, deverá ser instalado em uma estrada vicinal, a cerca de um quilômetro de Fernão. “Na vicinal que liga a cidade a SP 294.”

O prefeito não tem previsão de custo e nem da entrega da obra. “Não sei custos porque o projeto ainda não está concluído e não tenho prazo de entrega porque dependo da liberação de verbas.”

Só as igrejinhas

O antigo cemitério de Fernão está localizado em uma propriedade rural, anteriormente conhecida por Sítio Santa Rita. Duas igrejinhas e três túmulos ainda resistem ao tempo. O prefeito acredita que, no local, não haja mais ossadas, que teriam sido transferidas pelas famílias para a cidade de Duartina, há mais de 50 anos.

Na opinião de Martins, o governo estadual poderia fazer o tombamento. “A preservação é importante para manter a história.”

Ele acredita que na época em que a estrada de ferro foi construída e a vila, hoje Fernão, começava a ser fundada, os primeiros moradores tinham dificuldades para levar os mortos até Gália. “As estradas eram muito ruins naquela época e os corpos eram levados no carro de boi.”

Em função das dificuldades, os poucos moradores teriam resolvido enterrar seus mortos na área particular, que foi uma fazenda. “Naquela época, ninguém se preocupou em fazer a documentação de cessão da área.”

O local, segundo o prefeito, não pode mais receber mortos. “Fica muito próximo do córrego Eduardo de Souza Porto e a legislação não permite.”

O presidente da Câmara Municipal de Fernão, José Valentim Fodra, diz que a população está acostumada a enterrar seus parentes em Gália, a nove quilômetros da cidade. “A prefeitura cede o ônibus para levar os parentes e amigos até o cemitério de Gália.”

Ele lembra que sempre foi assim. “Os moradores de Fernão têm muitos parentes em Gália e isso não é problema para eles.”

Gália

O cemitério da cidade de Gália (60 quilômetros a Oeste de Bauru) foi instalado há mais de 70 anos e é ocupado por moradores do município e de Fernão, que se emancipou há mais de oito anos. Em função disso, será ampliado.

O prefeito de Gália, Hermano Piovesan, diz que o terreno já foi comprado e pago. “Ainda não fizemos porque não precisou. Basta derrubar um muro e teremos mais espaço para enterrar os mortos da cidade.”

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