Uma das mais difíceis tarefas em uma empresa familiar é separar os aspectos pessoais dos profissionais. O erro pode ser o grande responsável pelo fim do negócio. Para evitar problemas, é fundamental ter noção de gerenciamento.
De acordo com Milton Aparecido Debiasi, gerente do escritório regional do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), quanto mais familiar é a empresa, mais as pessoas misturam as finanças da família às finanças do negócio. “É comum a pessoa pegar o dinheiro que entra no negócio para fazer compra do mercado de casa”, exemplifica.
Debiasi constata que faltam noções básicas de gerenciamento em muitas empresas familiares. E, por não terem conhecimentos adequados, as pessoas acabam adquirindo problemas sérios.
“Elas não têm noção de compra, venda, mercado, preço, marketing. As pessoas não sabem quanto elas podem retirar da empresa para ela sobreviver. Conforme vão precisando no dia-a-dia, vão retirando e pagando contas particulares. Acabam errando no primeiro ponto”, critica.
Por falta dessas informações, as conseqüências muitas vezes são dívidas em bancos e até o fechamento do negócio. “São pequenos detalhes do dia-a-dia que acabam com qualquer empresa”, afirma.
O economista Carlos Sette concorda e diz que é fundamental a profissionalização das empresas familiares. “Quando elas não se profissionalizam, entram em crise, perdem espaço e fecham ou são vendidas”, expõe.
“As que dão certo são as que se profissionalizam. Se a empresa familiar atual do Brasil não se profissionalizar, ela tende a desaparecer porque não vai agüentar sobreviver à concorrência. Não dá para ficar no empirismo, como no passado”, alerta Sette.
Outro problema apontado pelo economista é a sucessão nas empresas familiares. Na opinião dele, o negócio sai em desvantagem quando um parente é escolhido para suceder o dono, sem ter a experiência adequada.
“A grande crise acontece no momento da sucessão familiar. Quando o pai coloca o filho em cargo de comando apenas por ser parente. É o grande erro das empresas familiares. A não ser que o próprio herdeiro seja um profissional já preparado”, ressalva.
Debiasi concorda. “A empresa cresce com a competência e a cara do empreendedor. Ou um profissional a toca com aquela linha ou ela morre. O ideal é que a sucessão seja um processo contínuo para que, em caso de problema, alguém possa tocar”, sugere.
O gerente do Sebrae orienta os empresários a preparar seus filhos para que tomem conhecimento das estratégias utilizadas pela empresa e para que sejam preparados para uma eventual sucessão.
Carlos sugere também que os donos de empresas contratem diretores e gerentes do mercado e criem um conselho de administração, formado por membros da família e responsável pelas decisões mais importantes.
Debiasi cita, ainda, os conflitos familiares nos negócios. “As brigas familiares atrapalham muito. Às vezes, o negócio vai bem, mas os conflitos levam ao fechamento do negócio. É comum”, alerta.
O gerente explica que muitos negócios são abertos por falta de emprego e não por oportunidade. “Os negócios são abertos por necessidade. Então, nascem empreendedores amadores. Isso complica muito”, avalia.
O economista Sette complementa, dizendo que em empresas pequenas é comum parentes trabalharem como funcionários. É uma forma também de resolver problemas de desemprego na família.
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Orientações
Uma das primeiras dicas para quem quer abrir um negócio em família é fazer uma pesquisa para identificar o potencial do mercado. É o que afirma Milton Aparecido Debiasi, gerente do escritório regional do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
Outra dica é só abrir empresa se o proprietário tiver pleno conhecimento do ramo escolhido para atuação. “As pessoas abrem porque acham que sabem fazer, mas falta conhecimento sobre o negócio. Muitas vezes, eles não conhecem o mercado profundamente”, diz.
Debiasi enfatiza que é necessário planejar as ações. “Se as pessoas não têm noção de como planejar, elas não sabem qual é o ponto de equilíbrio, não sabem quanto têm de vender para empatar com as despesas e começar a ter lucro. É necessário ter a previsão de em quanto tempo os investimentos retornam em lucro”, afirma.
Outro aspecto bastante importante, principalmente quando o trabalho é feito em família, é a divisão dos papéis. Segundo Debiasi, isso evita discussões.
O economista Carlos Sette acrescenta que é necessário deixar as regras bem definidas. “É necessário esclarecer como vai funcionar e esclarecer todos os pontos. Além disso, verificar se as pessoas que vão participar se dão bem em família. Quando começa assim e as pessoas têm talento, pode dar certo”, ressalta.
Por outro lado, o economista destaca como vantagem de trabalhar em família a confiança que as pessoas têm umas nas outras. “Existe uma união muito grande”, frisa.
Ele lembra que, atualmente, as empresas familiares sofrem forte concorrência das multinacionais. “Antes da globalização, era um ramo de atividade que dominava fortemente a economia do Brasil”, diz.
Sette afirma que as empresas familiares surgiram no Brasil a partir da chegada dos imigrantes. “Eles vieram para trabalhar na lavoura. Mas, depois da crise do campo e do êxodo rural, por volta dos anos 50 e 60, elas começaram a se formar. Eram pequenas empresas familiares”, expõe.