O homenzinho caminhava por uma viela escura de Barataria, onde tudo acontece, quando chamou sua atenção o intenso brilho de algo metálico semi-enterrado num dos buracos. Aproximando-se, viu que era uma lâmpada. Passou a mão sobre ela e uma fumaça amarela com fedor de enxofre começou a surgir do bico da lâmpada. O homenzinho assustou-se e deixou a lâmpada cair, enquanto uma grande forma humana masculina ia se formando no espaço vazio.
O homenzinho não conseguia entender como o mago podia caber em sua pequena lâmpada. Para isso, era preciso ter noções do nanocosmo, não somente como ciência pura, mas como a possibilidade de se criar máquinas e produtos que possam ser ao mesmo tempo pequenos e tão poderosos como o Gênio. “Nano” vem do grego “diminuto” e indica a escala correspondente à bilionésima parte do metro. Se cada ser humano ocupasse uma área de 1 nanômetro quadrado poderíamos colocar 100 vezes a população da Terra em apenas 1 milímetro quadrado. Antes que o homenzinho pudesse avaliar a situação, disse a figura com voz grave e firme:
– Sou o Gênio da Lâmpada e você tem direito a quatro desejos.
– Ai, que bom. Na historinha eram só 3?
– Agora vale tudo. O dinheiro é do povo, mesmo...
O homenzinho não titubeou em pedir US$ 5 milhões. Imediatamente apareceu uma maletinha onde cabiam apenas algumas centenas de notas. Exigiu explicações do Gênio e elas vieram num jato:
– Vamos pagar em 36 vezes com correção e juros de mora porque é assim que nós, que trabalhamos com lâmpadas, estamos recebendo.
O cidadão decidiu então formular o segundo pedido: 1.000 pontes sobre o Rio Barataria para acabar de uma vez com as pinguelas que ligavam a cidade e os bairros.
– Impossível. Um exagero. Nem cabe. Imagine quanto concreto... quanto aço. Essa quantidade de matéria-prima nem existe no mercado. Que quantidade incrível de mão-de-obra. Se houver problema com uma delas vão botar a culpa no meu calculista. Peça outra coisa.
– Minha esposa me diz que sou insensível. Então, meu desejo é que eu possa entender as mulheres.. saber como elas se sentem por dentro e o que elas estão pensando quando não falam com a gente. Saber porque elas choram... saber o que elas realmente querem quando não dizem nada, saber como fazê-las realmente felizes...
Nesse ponto, o Gênio interrompeu:
– Você, afinal, vai querer aquelas tais 1.000 pontes com duas ou quatro pistas?
Assim foi feito e o Gênio deu ordens para a rápida formulação do terceiro desejo:
– Então quero agora voltar a sentir os prazeres da carne - disse quase implorando e com ares concupiscentes.
Em um segundo, caíram do céu 100 toneladas de patinho que quase o sufocaram. Implorou por socorro e seu terceiro pedido estava satisfeito.
– Senhor Gênio, assim não vale. Volto a insistir com as mulheres. Quero que elas me procurem, sintam necessidade de mim, me aconcheguem.
Virou absorvente na mesma hora. Com esse quarto desejo satisfeito o Gênio deu por cumprida sua missão e sentiu-se, finalmente, liberto dos 1.000 anos de encarceramento na lâmpada. Esgarçou-se no ar como a fumaça que o trouxe. Do homenzinho, nunca mais se ouviu falar em Barataria... Moral da história: Entre o desejo e a realização nem sempre as coisas acontecem como a gente quer.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.