Tribuna do Leitor

"Cartas do meu moinho"


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Quando freqüentávamos os bancos escolares, uma saudosa e querida freira alemã, professora de Francês, dava-nos uma aula sobre um conto de Alphonse Daudet (1.840-1.897), em Lettres de mon moulin (Cartas de meu moinho). Nessa estória, o sr. Séguin mantém presa uma linda cabra, a fim de preservá-la das garras do lobo. Nada falta ao animal, entretanto, vive a lamentar sua triste condição de prisioneiro, até o dia em que, finalmente, consegue fugir. Pobre cabra! Não demora muito a defrontar-se com o terrível inimigo, contra o qual não adianta apresentar nenhuma resistência.

São interessantes essas estorinhas que aprendemos na escola. Só muito mais tarde iremos aplicá-las ao dia-a-dia e ver como fazem sentido, sentido esse que não conseguíamos apreender ainda quando a personalidade estava em formação.

Nossa surpresa maior foi encontrar uma alusão à “chèvre de ms. Séguin” no livro de Viviane Forrester, O horror econômico, que fez tanto sucesso quando foi lançado e que recomendamos aos leitores. A autora alude à luta da cabra pela vida, comparando-a aos dias atuais: de um lado, um apetite inesgotável e, de outro, o medo de perecer.

Isso aplica-se a cada país, a cada empresa, a cada indivíduo. Vejamos, como exemplo, os EUA, com sua arrogância, seus desmandos, seu apetite pantagruelesco, de tudo fazendo para firmar-se mais e mais perante o mundo. E Bush fazendo crer que é essa concorrência lá de fora que o obriga, se não quiser enfraquecer o país e, concomitantemente, permitir desaparecer os empregos.

Sempre o mito dos empregos que, lá como aqui, vão-se reduzindo a cada dia, acarretando miséria, insegurança, vergonha. O brasileiro também caiu nesse conto apregoado pelo Lulinha paz e amor, que, para eleger-se, não teve medo de mentir, engodar, porque eram previsíveis essas dificuldades na economia, principalmente na do trabalho. O Estado pode mais que as empresas? Quem pode apontar uma empresa que se tenha preocupado em agradar? Quem está interessado nisso são os poderes políticos. Empresa não faz charme, não seduz eleitores. Nada de sentimentalismo, de papo furado. Objetivo direto: administrar o lucro.

O mundo mudou. Na Idade Média, o homem era protegido pelas guildas, pelas corporações. Mas, o homem ansiou por liberdade, como a cabra do sr. Séguin. Foi bom? Foi ruim? Sabemos como a condição humana foi maltratada ao longo da história, porém as sociedades de antigamente ainda precisavam de subalternos em grande número. Hoje, entretanto, não é esse o caso. É doloroso observar a rejeição daqueles que não são mais necessários a uma economia de mercado para a qual não se constituem em uma fonte potencial de lucro.

Olhe o lobo, pobre cabra! Ele vai devorá-la. Você é fraca, o lobo é poderoso. Você vai ser caçada, até ser suprimida. E quando se tratar de seres viventes? A trajetória será a mesma, não duvidem. O forte massacrará o fraco. Por toda parte o mesmo jogo. Um sistema econômico aterrorizador e indiferente aos seres humanos que, com sua língua de chumbo, seus eufemismos, mal consegue disfarçar a brutalidade de nossa época. Como escreveu Forrester, “paira no ar algo de totalitário, de terrificante”. Como você acha que acabará esse filme?

Dra. Maria da Glória De Rosa - mgderosa@bol.com.br

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