Polícia

Com 4 mortes, PM prega tiro defensivo

Diego Molina
| Tempo de leitura: 5 min

Com quatro mortes de civis em confrontos com a Polícia Militar (PM) em Bauru, nos últimos nove meses, o Comando de Policiamento do Interior-4 (CPI-4) vem tentando incutir e reforçar nos policiais a consciência de que eles devem zelar, em primeiro lugar, pela preservação da vida. Ontem o titular da Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo, Itajiba Farias Cravo, esteve em Bauru para assistir, junto dos comandantes da PM, a uma apresentação do método de treinamento Giraldi, que tem como finalidade justamente a utilização do tiro apenas de maneira defensiva.

Na apresentação, uma equipe de policiais encenou uma ocorrência que incluiu troca de tiros com agressores e negociação de refém. Durante o ato, o coronel da PM Nilson Giraldi, criador do método que leva seu nome, destacou diversas vezes as instruções que os policiais recebem para manter a calma e agir com cautela, evitando qualquer ação contra a vida própria ou alheia a não ser que se faça extremamente necessário.

Segundo o coronel, é importante que os policiais sejam devidamente treinados e instruídos para a preservação da vida de civis e dos agressores, assim como de sua própria vida. “Não basta o policial saber o que deve fazer (no momento de confronto), mas ele deve estar condicionado. Ele tem de saber quando deve atirar e, mais importante, quando ele não precisa usar sua arma para resolver um problema”, diz.

O método Giraldi foi aplicado primeiramente em Bauru, e atualmente é utilizado no treinamento de policiais militares de todo o País. “Policiais de diversos países passaram pelo treinamento e se surpreenderam com as condições que os policiais encontram nas ruas brasileiras. Mas nos treinos, são os estrangeiros os primeiros a atirar”, comenta o coronel, mostrando alvos com desenhos de crianças e adultos desarmados com orifícios de bala.

Mais crimes

De acordo com dados da Ouvidoria da Polícia do Estado, a região abrangida pelo CPI-4 e pelo Departamento de Polícia Judiciária do Interior-4 (Deinter-4), com 143 municípios, registra menor número de ocorrências e crimes cometidos por policiais, na comparação com outras regiões do Interior de São Paulo. Ainda assim, os índices da região de Bauru vêm crescendo nos últimos três anos.

Na opinião do ouvidor das policiais Civil e Militar do Estado, a utilização do método na preparação dos policiais ainda é o começo de sua formação como protetores da vida. “É necessário repetir e incutir neles sobre esta filosofia. Hoje (ontem), vimos os agentes capacitadores, mas ainda precisamos de tempo para atingir e conscientizar todos os policiais da corporação”, argumenta.

Cravo destaca que a Ouvidoria registrou redução na letalidade policial no último trimestre, em torno de 55%. “Bauru é o berço desta redução, e espero que este índice seja significativo e comemorado com uma polícia eficiente. O número de denúncias é crescente na Ouvidoria, e isto significa que a população encontrou o canal para expressar seu descontentamento, e não que a polícia esteja errando mais”, defende.

De acordo com o ouvidor, no ano passado foram registradas cerca de 3 mil denúncias. Destas, aproximadamente 1.800 tiveram confirmação, resultando na expulsão de 900 policiais e 700 punições em todo o Estado.

O coronel Elizeu Eclair Teixeira Borges, comandante do CPI-4, lembra que o método de treinamento utilizado pela PM há alguns anos era importado das Forças Armadas. “Era o método do tiro ao alvo. Mas não é porque a lei justifica que você pode atirar, que você vai fazer isso. Vamos dar assistência aos policiais que são obrigados a atirar, e seu restabelecimento psicológico tem um custo grande”, declara.

O comandante aponta que nos dois casos de mortes ocorridas em confrontos com policiais neste ano, as duas vítimas tinham diversas passagens criminais. “Mas o mérito seria maior se um marginal armado fosse contido em sua agressão e tivesse sua vida mantida. Isto não quer dizer que o policial nunca vai atirar. A vida deve ser preservada, esta é a filosofia atual, mas se for necessário, o policial vai atirar, pois esse é o ônus da agressão”, conclui.

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Últimos confrontos com vítimas fatais

Nos últimos nove meses, foram registradas quatro mortes de pessoas envolvidas em confrontos com a Polícia Militar (PM). A primeira ocorreu no início de agosto do ano passado, no Parque Jaraguá. Adenilson da Silva Marçal, 19 anos, foi morto durante uma troca de tiros com policiais em frente à sua casa. Ele estaria apontando duas armas em direção a outro rapaz e ao receber a ordem de jogá-las no chão, efetuou dois disparos contra os policiais, que revidaram, atingindo-lhe a panturrilha e a barriga.

Uma semana depois, um adolescente de 16 anos foi morto enquanto tentava fugir, após ter participado de um assalto a uma lotérica no Núcleo Mary Dota. Na ocasião, os policiais militares que participaram da ação relataram que o rapaz foi cercado próximo ao Horto Florestal e teria efetuado cinco disparos. Ele levou dois tiros, e uma das balas perfurou o pulmão e o coração. O rapaz também possuía passagens criminais e foi reconhecido pelas vítimas do roubo.

No dia 22 de março deste ano, Paulo Roberto da Silva Marçal, 27 anos, foi morto no Parque Jaraguá num confronto com a PM. Ele era irmão de Adenilson, morto no ano passado, e recebeu quatro tiros após atirar contra os policiais, ao tentar se esconder atrás de um carro. A ocorrência foi registrada como resistência seguida de morte.

E no dia 23 de abril, na última semana, o rapaz identificado apenas como “Ratinho”, de aproximadamente 25 anos, morreu no Jardim Primavera, após tentar balear um policial do Grupo Especializado de Policiamento Ostensivo de Motocicleta (Gepom). O jovem teria tentado fugir ao ser abordado por dois policiais e efetuado um disparo contra eles. Ele foi atingido por dois tiros no peito e morreu a caminho do Pronto-Socorro Bela Vista.

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