Semana passada, em Washington, numa reunião de avaliação dos programas de combate à pobreza no mundo, o Banco Mundial, o BID e o próprio FMI chegaram à conclusão que eles estão longe de atingir os objetivos propostos há alguns anos, a começar pela contribuição de 0,7% do PIB de cada um dos países do G-7 que, na verdade, nunca foi alcançada. Esses programas pretendiam reduzir a pobreza nos países subdesenvolvidos, significando atender aqueles que sobrevivem com menos de US$ 2 por dia (algo como R$ 170,00 por mês), o que alcançaria uma parcela ponderável da população mundial, inclusive no Brasil.
Diante dos resultados absolutamente insignificantes, os organismos internacionais renovaram o chamado à participação dos países ricos, mas acrescentando um apelo interessante: além da contribuição de 0,7% para o Fundo de Combate à Pobreza, eles exortaram aqueles países a liberarem o ingresso em seus mercados dos produtos agrícolas originários de seus parceiros mais pobres e ainda eliminem os subsídios que dão internamente à esses mesmos produtos. Isso é importante porque respalda a atitude de países como o Brasil que defendem a tese que a melhor forma de ajudar os países mais pobres é estimular a expansão de sua produção agrícola, facilitando o seu acesso aos mercados dos mais ricos.
Significa procurar a solução correta, que é a abertura de oportunidades para a criação de empregos. Combater a pobreza exige apenas isso: dar emprego a quem não tem; as demais formas revelam-se equivocadas, em qualquer lugar do mundo. No Brasil, nós já experimentamos processos variados de ajuda direta que no máximo evitam que a pessoa morra de fome, mas continua miserável. Felizmente, experimentamos também, embora de forma descontínua, dar apoio à produção agrícola: nos últimos três anos as oportunidades de trabalho vem aumentando fortemente no setor da agropecuária, que aos poucos vai recuperando a prosperidade e ocupando a mão de obra no interior do País, contrastando com agressiva pobreza de nossas grandes cidades onde o emprego é sustentado basicamente pela atividade industrial, que não cresce há uma década.
A eliminação de restrições ao comércio agrícola daria a medida da disposição dos países ricos de combater efetivamente a miséria no mundo, oferecendo a única condição capaz de restituir a dignidade aos pobres, pelo trabalho. A proposta do Banco Mundial e dos demais organismos vai na direção correta e deve receber o suporte de países como o Brasil, embora saibamos que é muito pouco provável que encontre aceitação nos atuais governos dos países desenvolvidos.
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br.